quinta-feira, outubro 12, 2006

Gato mia!



Era cedo.
Um grito anunciava o começo do jogo! Com a luz apagada a gente se escondia no quarto e ficava miando até ser encontrada.
No final desses encontros, apostávamos corrida entre dois postes da calçada.
Quem vencia não importava. Os quatro primos sempre ganhavam.

Era muito cedo. Era nossa infância.
Do quarteto, uma amizade era a mais especial: éramos as "primas N", Nádia e Nicolle!
Nos tempos de vida no campo, nos nossos anos mais divertidos, dividimos o que a gente tinha de mais valioso.

A Ni foi minha melhor amiguinha. Juntas, criamos incontáveis brincadeiras... Fomos inventoras, poetas, aventureiras, professoras, desbravadoras de mundos que só a gente conheceu.
Hoje, vasculhando a memória, encontro as passagens secretas de tantos desses universos que não cansávamos de descobrir no meio do mato e... eu queria muito que alguma dessas passagens a trouxesse pra perto de mim.
Não traz.

A única forma possível de reencontro me parecem as palavras.
Queria saber traduzir de alguma forma os rios de lembranças cheios de saudade que inundam a criança que ainda vive dentro de mim – criança que certamente segue com ela. Só nesse encontro consigo chegar um pouco mais perto da menina Nicolle.
Dentro de mim ela corre, e brinca e me sorri como se nada tivesse acontecido nos últimos anos que nos levaram pra longe.

Todas as nossas molecagens me parecem ainda tão reais!
Cada recordação tem cheiro, tem som. É terra, é mato, amoras; barulho de bombinhas, do vento, dos passarinhos, da voz dela concordando comigo... Topando mais uma aventura, a invenção de um novo lugar.

Não lembro quando paramos de apostar corrida na rua. Mas desde lá, nossas vidas seguiram rumos diferentes.
Nossa imaginação fez de mim jornalista, dela arquiteta. Ni escolheu construir realidades, eu contar as histórias do mundo real.
Caminhos parecidos, caminho separado.
Crescemos, nos perdemos, mas isso não importa.

Vejo que ainda que com 26 anos, pra mim nosso tempo não passou. Aqui dentro, a Ni ainda é aquela garotinha corajosa que acreditava sempre em mim e topava qualquer brincadeira!
É como se a gente tivesse parado o tempo na melhor fase da vida, em que fomos somente inocência!

Não por acaso, hoje, ironicamente no dia das crianças ela foi embora, levando qualquer possibilidade de deixar de ser pra mim e pra sempre apenas(?) infância.

Também hoje, descobri que ela ainda me ama. Foi aqui na internet - que sei que era um de seus brinquedos atuais preferidos (ela faz parte de uma comunidade criada pra mim no orkut... Só agora percebi.)
Não tive a oportunidade de dizer a ela que eu também a amo. Nossa amizade nunca foi de declarações, foi ação. Mas sei que ela sabia, sempre soubemos.

Agora no quarto, de noite... Num escuro parecido com o dos tempos do gato mia, escondida da minha própria tristeza, deixo que nossas melhores lembranças me encontrem. Sei que essa é a maneira mais bonita de a gente matar a saudade!

3 comentários:

Lucia disse...

Cada palavra passa um sentimento profundo, vivido intensamente e com certeza estara em seus coraçoes eternamente.
Eu te amo por ser voce um ser magnifico com toda expressao que a palavra possa significar.

*marcela* disse...

pelo menos as lembranças são eternas..
e a vida nada mais do que uma grande coleção de momentos na memória..
conte comigo, querida!!! bjo

papito disse...

não somos nada...
nascemos sem nada...
e não levamos nada...
só deixamos... lembranças do melhores momentos.e felismente nós os tivemos. saudades...