segunda-feira, janeiro 30, 2017

Dia da saudade

Tenho saudades de quando eu tinha um gravador colorido e nele cabiam todos os sonhos do mundo. De quando eu passava o dia desenhando uma exposição de quadros de giz de cera pra hora que a minha mãe chegasse! De quando eu acordava cedo, cruzava a cidade, estudava a noite, cruzava de volta e nunca cansava. Saudade de fazer castelos de areia com meu pai, de jogar tamboréu. Saudade de fazer dupla de volei com meu irmão e de quando eu entendia todos os jogos que ele jogava.
Saudade de quando eu comia sem culpa a comida gostosa da minha mãe! De quando eu não conhecia a palavra glúten... E ninguém sabia o que era lactose! Sinto falta das fitas k7 que eu gravava sem parar a minha trilha sonora e rebobinava com a cabeta bic pra economizar a pilha que não era recarregável.
Saudade de quando era dia de casamento e a casa da minha avó ficava cheia de flores de todos os cheiros, na verdade tenho saudade mesmo do abraço da minha avó! Saudade de quando eu jogava bola com os meninos na rua e acreditava que não havia nada que eles fizessem que eu não pudesse fazer.
Saudade de quando tinha outros barulhos na minha casa além dos meus e eu nunca jantava sozinha.
Dos cafés da manhã de domingo com toalha de mesa de bolinhas e passeios no parque. De quando a estrada nunca era solitária.
Saudade do que quero tanto que venha! Que chegue logo!
Hoje ter saudade é quase sinônimo de ansiedade ou de depressão, depende do tipo de saudade.
Enfim, saudade de quando sentir saudade passava porque era só saudade.

terça-feira, novembro 01, 2016

Quando comecei a escrever nesse espaço, 12 anos atrás eu era uma menina fascinada com a possibilidade de mandar mensagens ao desconhecido. Lançar minhas garrafas cheias de sentimentos ao mar. 
Meu blog virou diário, um espaço público para as minhas intimidades. 
Esperança de ao falar com o mundo, me ouvir.
Sempre pensei em mim. Na vontade de transbordar meu entendimento em palavras a medida que a vida chegava. Se alguém lia, deixava ao acaso. Palavras boiando entre as ondas da rede. 
E elas navegaram! Encontraram histórias que eu nunca conheci, ganharam outros sentidos, tão parecidos com os meus! E tocaram uma outra menina no interior do Ceará, inexatos milhares de quilometros daqui. Tão perto de mim.
Anatália Nery cresceu junto comigo.
Adolesceu, saiu de casa, entrou na faculdade de fisioterapia, hoje apresenta um programa de TV, ganhou uma bolsa por isso e antes mesmo de se formar virou mestre no que melhor sabe fazer: cuidar das pessoas. 
Ela leu e releu cada palavra minha e no balanço do mundo, hoje ela que me encontrou! Me imprimiu de presente de aniversário atrasado que atravessou o Brasil e veio me ver! Enfeitado com bonbons, doce como a amizade deve ser. 
Hoje, 12 anos depois da primeira palavra tenho comigo meu primeiro livro! 
Que a vida continue surpreendendo a minha menina! Que a sua, minha amiga Anatália Nery: acredite que os sonhos são poderosos como as palavras e que a felicidade é inevitável como a travessia das garrafas! (que sempre encontram o destino, seja qual for o tamanho do mar.)

sexta-feira, outubro 28, 2016

Prisão

É dentro. Queria uma grade, um muro que fosse. Bateria nele com tanta força, que certamente haveria saída. 
Alguém quem culpar, um carcereiro serviria. O vazio é que não há.
Sou gaiola de mim e o passarinho me olha cansado. Debruçado na poeira das asas, ele quase diz. Mas nem isso.
Faz frio, faz calor. É noite, dia de novo. Outubro passou e mais um ano de mim.
O que eu quero? Hoje bastava querer.

segunda-feira, outubro 10, 2016

Lá fora, o branco combina comigo. Um sem fim de calma que de repente vira azul. Alta no céu, vejo agora as nuvens de cima. É como olhar pra mim. Só que melhor.
Sou cada pedacinho do tapete felpudo que hoje é meu caminho voador.
É meu aniversário! Dia 10 de outubro e são 36 anos! Sinto que vou lembrar de hoje pra sempre como o dia em que eu fui praticamente só coragem! Esse é o meu presente, deixei minha vontade escolher.
Sabe quando tudo que te trouxe até aqui te sacode de manhã e te diz: é hoje, vai ser feliz!? 
É... Tá acontecendo! 
Ganhei parabéns da aeromoça! Quase perguntei como ela sabia, mas preferi imaginar que é mais um presente mágico, recado do universo! (E como me ama esse universo!)
Quero mais, guardar meu hoje como o dia em que entendi que eu escolho o próximo passo. E que é indo que se vai onde se quer. 
O medo é cinto de segurança, vai com a gente. Não dá pra esperar ele passar. Ele é parte da gente. 
Acontece que a coragem agarrou no controle e agora o medo existe, mas é bem menor.
Coragem, medinho e eu. É assim que se faz história. A minha história...

segunda-feira, novembro 03, 2014

Sentir alegria

São tantos os sentimentos vivos. Nascemos aos berros já buscando por eles. Desejamos cuidado, carinho. Nossa necessidade de respeito cresce junto com a gente. Adolescemos de urgência por sentir. Queremos a vida aos goles, aos litros e ela amadurece, nos amadurece. Nossos desejos não. Seguem infantis como nós. Querem ser amados, desejados. Querem juras de amor, depois de eternidade e sempre haverá o que desejar.
Na ansia de querer o tanto que se quer, buscamos. Não sabemos onde. Nem exato o quê. Sabemos que queremos, aquilo que nunca se teve. Aquilo que tanto se quer.
O prazer. O sucesso. As certezas.
Comemoro com cada poro meu encontro com eles. Me realizo com cada sentimento.
Recentemente descobri a alegria. Redescoberta. Me apaixonei inteira por ela. Feliz. Com a experiência de quem suspira, afirmo com o entusiasmo do meu eterno desejo: ainda melhor que amar é também sentir alegria por alguém.

segunda-feira, julho 14, 2014

Sou repórter não muito convencional, do tipo que odeia notícias ruins. Acabo de saber da morte de Vange Leonel, fiquei triste, mas só decidi escrever porque quero compartilhar não lamento, mas gratidão. Confuso, né? Para quem não conhece, Vange é a cantora que emplacou, o hit “Noite Preta” da novela Vamp, eu prefiro pensar que ela é mais uma mulher corajosa. Num país, onde as brasileiras ainda ganham em média ¼ a menos que os homens e morrem mais do que na maioria dos lugares do mundo, vítimas da violência de seus próprios parceiros, Vange ousou ser feminista. Mais do que isso, Vange foi o que é. Se hoje, nós brasileiras podemos ter pelo menos a impressão de que vivemos numa sociedade mais igual; se podemos esperar com naturalidade não só pelo beijo, mas pelo casamento gay num fim de novela; se temos uma presidente mulher, e podemos inclusive vaiá-la é porque mulheres como a Vange souberam dizer o que pensam. Morte, não. Viva ela e todas nós!

terça-feira, novembro 19, 2013

MOSCA NO AVIÃO


Dentro do avião, o zunido me acorda. Estou sonolenta, uma mosca passa razante, bate no vidro, me sacode da cadeira. Volta. Me contorna e estou agora com toda a energia desviando dela. 
Já estamos no ar há mais de uma hora. Em mais trinta minutos estarei em casa. E a mosca?
A essa altura, literalmente não a vejo mais. Certamente está acordando outra pessoa, pois não há comida no vôo. Sei que no momento ela se foi. Isso me basta. Ainda assim, continuamos aqui: eu e a mosca.
Olho a janela, a luz que a seduziu continua lá. Se não fosse a mosca, eu certamente estaria dormindo e não a teria percebido.
Pena não poder abrir a janela. Seria a liberdade da mosca! 
Sinto a ausência dela e me surpreendo solidária. Solitária. Mas janelas de aviões não se abrem. Abro-me eu então ao olhar a janela. Penso na vantagem que tenho, sobre quem me tirou o sossego: afinal ao contrário das moscas sei que janelas de avião não abrem e estou livre de bater a cabeça.
Curioso imaginar o tanto que uma visita tão rápida e insignificante me faz pensar. Já se foram 15 minutos. Estou agora preocupada com ela, a mosca. Estaria o bichinho fugindo de um tabefe, ou simplesmente distraído com a paisagem. Não, a contemplação não é da natureza das moscas. Elas voam incansáveis até nos tirarem o sossego.
O vôo vai terminar a qualquer momento e nada da danada. Espero que ela esteja bem, afinal por causa dela estou aqui. (Imagine, se Kafta tivesse conhecido a minha mosca!) Me espanto comigo. Sinto gratidão por quem me acordou. Ela não aparece, mesmo assim seguimos voando, as duas.
A coragem dela me inspira. Lembro da vontade daquele inseto de ser livre. Toda, inteira tomada por um desejo selvagem de ganhar o mundo e eu ali, estática, dormindo.
Pousamos.
Despeço-me da ansiedade de vê-la. Não se faz mais preciso. Sem saída, agora dentro de mim, a mosca me mostra o caminho.

quinta-feira, outubro 10, 2013


Normalmente escrevo para organizar meus pensamentos, hoje faço isso por gratidão. Comemorar a vida é  agradecer. Amo fazer aniversário. Sempre foi assim. Gosto da expectativa da data, do dia que literalmente corre cheio de demonstrações de afeto esperadas e inusitadas. Esses são os dias ideais para  se surpreender com a forma de amar das pessoas.
Hoje ganhei mais um desses presentes. O dia começou cedo, amanheceu colorido. Pude até ver o sol entardecer, do estacionamento do trabalho. Recebi carinho e amor de todas as formas. Comemoro feliz mais um ano do jeito que eu mais gosto, agradecendo.

terça-feira, outubro 08, 2013

UM MUNDO MEU

Há mais de um ano eu não escrevia. Estive pelo mundo, pelas casas, encontrei muitas vidas, andei pelas ruas, as que inventei e as que conheci. Viajei por mim mesma, também por aí, mas hoje voltei. Quem como eu se busca, sabe a diferença entre morar num lugar e se sentir em casa. 
Há exatos 3 anos, eu não me sentia assim. Já fiz nove mudanças de endereço, mas sabia que a décima seria especial. Urgente, ao mesmo tempo demorada. Do tipo fundamental.
Ontem, depois de meses de paciência abri FELIZmente a porta de casa. Entrei, me deitei sobre o tapete da sala e agradeci aos céus. Me entreguei ao fluxo de energia do universo e me vi naquela hora onde eu deveria estar, precisamente no lugar. Meu lugar.
De pronto, senti toda aquela espera escorrer da memória cansada, junto com minhas pernas que já se apoiavam na busca de conforto. A ansiedade que me perseguiu por anos se calou do lado de fora da janela, a essa altura fechada. Me olhava de longe, com olhos tranquilos. 
Todas as cobranças severas a mim, feitas por mim mesma também não estavam lá comigo. Naquele instante em que respirava feliz no tapete fomos apenas eu e minha felicidade interior. Uma dupla que se afinava em tempo real diante da sinfonia de músculos e nervos enfim relaxados.
Hoje, me senti em casa pela primeira vez de manhã. Dei os passos encantada com meu próprio barulho e é impressionante como qualquer ruído é diferente, principalmente num lugar novo ao começar do dia. Foi como se eu me reconhecesse na liberdade da ainda falta de rotina. Cozinha, sala, quarto, banheiro, cada cômodo se transformava diante de mim em um sem fim de possibilidades. As regras finalmente eram as minhas e o mundo meu. 

sexta-feira, março 30, 2012

Vida que é arte

Ela definitivamente faz arte! É dela esse lindo mosaico e repare em como as peças foram todas cortadas uma por uma, claro por ela.
Mas tem mais. Ela pinta meus dias com tons coloridos. Faz de mim escultura de amor, com seus fortes abraços.Compõe a música que embala a criança, que ela ajudou a virar mulher.
Falo da minha Marmita, apelido carinhoso da minha mãe talentosa!
E olha que ela sempre se achou um patinho feio, daqueles que não levam muito jeito com as coisas. E ela dá jeito é pra tudo!
Olhando o talento dela com as pedras. Sua delicadeza incansável na construção dos desenhos, penso que são as peças da própria vida que ela compõe no mosaico.
Risos arrendodados, desafios pontudos, sóis e estrelas a brilhar numa colcha multicor que ora é apoio, ora virada de mesa.
Obras da mais natural das artes: a de viver e ela vive!
Assim admirando teu brilho também monto meu mosaico.
Sem um alicate capaz de cortar as palavras na medida pra te compor essa homenagem, minhas frases soltas são como pequenas peças, rejuntadas pelo amor que dou e que recebo dela.

segunda-feira, março 19, 2012

Aprendendo com SÃO JOSĖ

É fascinante como as mensagens do universo nos encontram, quando estamos abertos a recebê-las.
Hoje foi assim. No dia de SÃO JOSÉ aprendi sábias lições com ele.
O santo protetor dos trabalhadores, da família e dos artesãos, quis o destino que se tornasse também um padroeiro da minha história profissional mais recente.
Como todos os seus devotos, fiz promessa e sorteio de frutas. SÃO JOSÉ me foi genoroso. Troquei um pedido de graça, por um ano sem comer cajá. Com esse sorteio, de um jeito quase natural, aprendi que nem sempre precisamos de grandes privações, mas sim de merecimento pra realizar nossos projetos. E de certa forma, sinto que ele sabe que pode esperar isso de mim.
No fim do dia, mais uma lição imensa: ao receber uma notícia totalmente inesperada, antes de questionar furiosa o porque daquilo, lembrei da história pessoal de SÃO JOSÉ. Ao ser comunicado de que sua esposa MARIA, seria mãe do filho de DEUS, em vez de revoltar-se, SÃO JOSÉ acolheu a notícia, aceitou a informação que recebeu e foi brilhante em sua missão!
De vez em quando, precisamos dessa fé. Da certeza calma e lúcida em nosso coração de que existe um plano maior que faz tudo fazer sentido em nossas vidas.
Cabe a nós, carpinteiros dos nossos sonhos, trabalhar muito, mas também saber reconhecer quando as dádivas nos chegam camufladas de notícias inesperadas.

quarta-feira, setembro 22, 2010

Meus dias de ócio tem me deixado inspirada...

Talvez pela quantidade de horas absolutamante livres de qualquer responsabilidade, ou ainda pela falta de costume ao silêncio longo, recheado apenas do barulho do mar, da conversa sempre bem vinda da minha mãe e dos gritos de estranhos, nem tão bem vindos assim... (Gente que fala alto, na maioria das vezes precisa de atenção, mas nem sempre tem muita coissa interessante a dizer.)

Ignoro a última parte, até porque a semana a beira mar anda leve e quase perfeita. Sigo na tentativa de usar essa súbita inspiração matinal. Quero escrever, mas escrever sobre o quê?

Corro pro mar e vem a resposta. Quero falar da felicidade simples que é ficar molhada na praia.

Na beiradinha, especialmente em dias quentes como hoje a água é tão fria! Muitos se acovardam e fogem. Eu teimo em ser corajosa. Penso sempre na sensação final. O mergulho completo, o desafio a mim mesma. Vem o disparo e o choque. Uma quase dor inicial, mas assim que subo da onda sou nova!

É quando paro de sentir frio, paro de sentir medo.
Até que o corpo seque sigo com essa certeza molhada de que posso tudo!
Eis a magia da praia!
Quisera que fosse sempre simples assim: que quando a coragem escorresse, bastasse um novo mergulho.

quarta-feira, setembro 08, 2010

TUDO É SÓ ISSO

Meu pai há um bom tempo não tem merecido muitas homenagens.
Desde que meus pais se separam, uns 10 anos atrás temos nos afastado com muita velocidade.
Nessa mágica às avessas em que um herói perde aos poucos seus superpoderes, temos nos perdido também; ainda que nunca tenhamos desistido um do outro.

No começo assumi um compromisso comigo mesmo de ligar pra ele todos os dias. E ligava. E insisti por anos nessa rotina que nos mantinha mais próximos.
Com o passar dos anos os telefonemas foram rareando. Viraram semanais, hoje faz um mês que não nos falamos e ele me ligou. Inesperadamente meu pai me ligou.
Ele não disse que sentia minha falta, não me cobrou atenção. Não com palavras, mas mesmo com seu jeito durão e conversando sobre cervejas e churrasco, a surpresa da presença dele me derreteu por dentro.

Meu pai tem uma teoria que diz que ele se afastou pra que eu me acostumasse a viver sem ele.
Sempre pensei que isso fosse uma idéia sem sentido, desculpa esfarrapada pra quem anda dando muita cabeçada e não consegue cuidar do que mais importa.
Talvez ele esteja certo.
Dizer o que meu pai é hoje pra mim é difícil. Não saberia dizer.
Sei que até uns 20 anos ele foi o cara pra mim! Me arrastava pela sala no tapete voador da colcha estampada, brincava todas as noites comigo e com o meu irmão, construia com a gente os castelos de areia mais lindos do mundo e de certa forma vivemos em um deles boa parte da vida.

A maré subiu. As torres que ele nos ensinou a fazer com tanta paciência ruíram aos poucos.
Nos separamos e com a dor de quem vê a água entrando pelas janelas e arrastando tudo, aprendi a construir alicerces mais fortes.
Viemos eu e meu mano morar no caminho, mas longe da praia. Minha mãe também veio. É nossa vizinha. Enquanto isso, os castelos do meu pai, ainda que vazios de nós ainda seguem de areia.
Toda vez que a água vem, ele tenta driblar a maré. Se afasta um pouquinho das ondas, mas continua na areia.

Hoje, mesmo depois de tantas desconstruções ainda vejo nele, meu pai de menina: brincalhão, sonhador, pescador de peixes grandes, idéias simples. Um homem incansável e quase insuportavelmente otimista, o tempo todo.
Os anos tiraram dele a perfeição, muitos castelos e a proximidade de nós.
Mesmo assim, sempre que vejo ele sentado na areia, ainda que apenas do outro lado da linha, tenho vontade de esquecer que cresci e correr, pular no pescoço dele. Dizer pendurada num abraço o quanto os erros e a alegria dele são responsáveis pela mulher que tenho orgulho de ser.

quarta-feira, agosto 04, 2010

a ilha PEQUENITA

Ela reinava absoluta na porta da casinha pau-a-pique. De lá estranhou nossa chegada. Correu pra dentro. Sumiu do meu alcance. Só consegui desarmá-la com o argumento que justificava a visita. Disse que tinha vindo de muito longe em busca de tempo: um único dia.

Pequenita estranhou o pedido esquisito, afinal tempo era o que ela mais tinha. Há anos, talvez desde sempre sobravam-lhe as horas.

Mesmo desconfiada daquela jovem, que era eu, PEQUENITA liberou as fronteiras. Me guiou por um mundo cercado pelo Rio São Francisco sem relógio e sem eletricidade, onde ironicamente tudo só acontece se realmente for necessário e na hora certa.

Deu fome, fomos pra canoa. A escolha da natureza, pescamos piranhas.
Era o que tinha e foi o que nos satisfez. Cozinhamos o peixe na água do rio, pinicamos, sim pq pinicar é preciso e ajuda a diminuir o risco de engasgar com os espinhos. PINICAR... Um verbo quase intraduzível que aprendi a conjugar na marra e na ponta da faca afiada. Sob o olhar atento de PEQUENITA, que se ria toda de minha inexperiência, e a essa altura me dava o primeiro sinal de afeição.

Quanto a mim? Como não se apegar àquela mulher? E como me apegaria nas próximas horas!
PEQUENITA tomou banho de rio, de vestido e tudo. Sem vergonha de mim, ou da câmera. E assim, sem pudor de viver como se deve me mostrou como se vive.

Pilão Arcada foi abandonada há mais de 30 anos, mas está tudo lá. Foram horas de caminhada pelas ruínas de uma cidade que desde então é toda dela. A igreja, as ruas, o que sobrou das casas, o vazio ganhava forma na medida da memória e da Imaginação Pequenita.

O pôr do sol no cruzeiro, no ponto mais alto do que um dia foi cidade me deu a dimensão da ilha. Uma benção divina traduzida na oração da rainha desse pedaço de Brasil, que naquele momento certamente ao pedir por ela, agradecia por nós. Aquela melodia mágica, de joelhos ajudava a explicar pra DEUS o que palavra nenhuma é capaz de dizer.

quarta-feira, junho 30, 2010

OS FILHOS QUE NÃO SÃO NOSSOS

  
Sabe quando um filho fica doente, ou mesmo passa por alguma tristeza? Quando a dor dói tanto no outro que você pensa num jeito de evitar que machuque de todo jeito?
Pois é, ainda não tenho filhos, mas acho que conheci esse sentimento.

Quando precisei visitar, testemunhar e traduzir o sofrimento de Alagoas depois da cheia, meu coração teve dois impulsos. O primeiro foi o de doer muito, a dor que doía neles.
Depois, quase que imediatamente veio a resignação - a mesma de um pai que sabe que não pode tomar a dor de um filho. Seria a dor roubada uma dor inútil e o peso do roubo insuportável.

Entre os flagelados da cheia do sertão havia desespero sim, mas também muita força.
Tanta que na viagem de volta, as ruínas não me assombram. Nem o choro, nem a chuva, nem a miséria.
Os sorrisos, a alegria pura que só é possível quando nada se tem, mesmo que tudo se perca - essa sim viaja comigo.

Impotente como quem cresce, volto pra casa orgulhosa dos filhos que não são meus.


sexta-feira, junho 18, 2010

A VIAGEM DE SARAMAGO

Assim que soube da partida de Saramago, procurei por ele.
Saramago não estava. Nem nos sites, nem nas notícias.
As manchetes que li e foram muitas falavam de um escritor, de um homem premiado, um Nobel de literatura.
Páginas e páginas vazias de qualquer ensaio sobre o que esse homem realmente é.

Queria encontrar o José Saramago que antes de morrer, viveu.
Fez isso em muitos lugares, especialmente numa ilha. E Canárias, mais que um endereço foi ninho.
Isso não está nas manchetes fúnebres, desinteressantes. Assim como José não está nelas e por isso escrevo.
Não pra me despedir, porque não nos depedimos de quem não morre.
Escrevo pra encontrar um amigo. Alguém que nunca me viu e que tanto me conhece.

Falo do José de Pillar que descobriu o amor depois dos 60 e viveu quase 27 anos enamorado.
Do rapaz português que nasceu numa vila e aprendeu a ler sozinho pra provocar o mundo. Me provocar.
Busquei e busquei palavras a altura de quem tanto me abriu os olhos, me desenvagelizou.
Aqui estão elas, poucas, orgulhosas e agradecidas.
Simples como o jeito que ele me conquistou.
Eternas porque quem escreve não morre.

Como ousadia, peço a ele emprestadas suas palavras escritas ainda hoje, pouco antes da partida.
Não são as últimas, porque pra quem lê, tem sempre o poder de serem as primeiras.

"Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de refexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, nao vamos a parte nenhuma".

sábado, abril 03, 2010

Uma mensagem

Acabo de assisitir ao filme de Chico Xavier.
Isso mesmo, coincidência, ou não foi no dia 2 de abril. Aniversário dele.
Recebi uma lição de amor. Eu e um cinema inteiro de gente encantada com o poder do amor.

Fico pensando no tamanho da ansiedade de tantas almas procurando seu ouvido, alguns instantes de lápis e papel.
Quando a vida acaba, ou melhor quando cada vida acaba, por mais longa que seja deve mesmo dar uma sensação de quero mais. Um minuto que seja, um recado, uma palavra não dita.
São tantas as horas, os dias e os anos vividos e pronto, sempre falta aquela oportunidade.

Sei que nunca será o bastante, mas costumo dizer eu te amo todos os dias.
De tanto que eu falo essas e outras palavras talvez nem soem mais importantes.
Sigo dizendo ainda que assim.

O desprendimento de Chico Xavier foi tão grande na missão de distribuir a paz, que ele mesmo conta que nunca teve.
Ele viveu como um surdo que empresta os ouvidos pra quem nunca escutou uma bela música, ora foi
cego, que dá os próprios olhos pra quem ainda que são e de óculos vivia longe da luz.

Estou tímida, nesse teclado que não é sequer esboço de papel e lápis.
Admirada por todas as vidas tocadas por ele, escritas e eternas, todas em busca da grande MENSAGEM.

sábado, fevereiro 06, 2010

30 Minutos

As hélices ligadas sacodem o bloco, a página e eu.
Faz sol, já estamos em Bauru e o destino é Araçatuba.
Seis anos depois ir não é como voltar.

O assento a direita está vazio, mas nele viaja uma jovem. A mesma que cruzou o estado sete anos atrás, leve de mochila nas costas, com todos os sonhos do mundo.
Nos olhamos nos olhos. Ela encara humilde meu orgulho, que é dela. Ele me transborda.
Com a simplicidade que também é minha viajamos juntas.

Como medir a coragem que já se teve?
Nada me dói. Antes na estrada, hoje no céu, já somos vitória.
Sou cada memória dela, ela é toda minha esperança.

A 30 minutos de rever o começo, nos damos as mãos.
Mais que isso, ela viaja agora dentro de mim.
Somos sonhos, voz e asas. Somos gratidão.

quinta-feira, agosto 13, 2009

IPÊ AMARELO


É inverno e a maioria das flores está calada. Os galhos nus, tímidos. As folhas no chão, entregues ao vento.
Não todas, algumas árvores são resistência. Pelo menos a minha preferida é.
Ela tem nome de cor, Ipê Amarelo.

Não tem medo do frio.
Como tudo que surpreende, é vida que brota dos galhos quando menos se espera. Vida dourada que se equilibra quase planando de tão leve entre as copas.
Contagiante, mágica.
Sim, porque além da beleza guarda um poder especial: minha avó me ensinou que ela realiza desejos!!

Acredito tanto nisso!!! Cada Ipê é um convite pra um sonho.
Aprendi que quem abraça uma árvore florida e divide com ela uma vontade da alma - daquelas bem verdadeiras - realiza o que pede.

E mais, meu Ipê é tão generoso que entende a pressa do dia-a-dia e aceita pedidos feitos de longe, ainda que só com a intenção do abraço.
Ele quer ser visto! Notado. Quer dividir com quem percebe suas cores que sempre é tempo de florir, ainda que faça frio.

Seu encanto é breve. Me inspira, avassala.

Ainda na primavera as flores se vão. Deixam os galhos vazios de seu brilho amarelo, anônimos, quase imperceptíveis durante o verão e o outono.
Tranquilos eles dormem, até que a nova vida dourada de sonhos ouse novamente com sua magia contrariar o inverno.

domingo, junho 21, 2009

Reforma


Esse caderno amanheceu com mais linhas.
Passei a noite relendo arquivos. Revivendo textos.
Publiquei lembranças quase esquecidas. Autocensuras egoístas.

Meu blog é coisa simples, lugar de despejar sensações.
Cada post tem milhares sentidos, marca um lugar no tempo. Tem pra mim o valor da memória.
Quando leio me desloco. Quem me lê também.
Só a sabedoria ingenua do não saber abre as portas.
Engatinho.

quinta-feira, março 19, 2009

Acordei egoísta

Saí de casa e logo de cara atrapalhei a passagem de uma mulher com um cachorro. Pra minha primeira surpresa, os dois sorriram.
Na rua de baixo foi a vez dos lixeiros. Eles moíam o lixo, que escorria do caminhão. Agarravam a sujeira que também era minha.
Eu, egoísta quase me incomodava porque que eles atrapalhavam meu trânsito quando, um deles sorriu. Me deu a passagem.
Depois do almoço, na sorveteria eu escolhia o sabor enquanto uma perua tentava insistentemente passar na minha frente. A atendente educada, pedia que ela esperasse. Peguei meu sorvete, fui pagar e a surpresa: estava sem dinheiro.
Não é que a perua, aquela que há instantes quase me irritava se ofereceu pra pagar. Me deu o sorvete, de graça e sorrindo.

A vida é assim, a gente dorme 28 anos coberta de certezas.
Um dia acorda sozinha, vazia de tantas delas.
Dura, egoísta!
Acorda sem o que pensava que sabia, nua do que se amava e de si mesma.
O dia começa triste. É inundado de gentileza.
Você lembra dos sorrisos, tem vontade de chorar.
Olha pro silêncio que tanto desejou e não reconhece.
E então?
Grata adormece, querendo acordar.

sábado, dezembro 20, 2008

Reforma

Os calos incomodam e não cabem mais dentro da sapatilha.

Mesmo! O espetáculo segue, cada dia mais sério, o público cresce e é sempre mais exigente. Durante o corre corre das luzes acessas é fácil dançar, e brilhar, e sorrir. Ainda que os calos estejam lá. Quando as luzes se apagam, aí vem o escuro - que fere. Não gosto do escuro. Nem total, nem parcial. Nunca gostei. Me acostumei a dormir em silêncio e com a luz apagada por mero cansaço - quando se está exausto, pouco importa se está claro ou escuro. A escuridão me incomoda. Não é medo, é ausência de algo essencial: luz.

domingo, julho 27, 2008

Sem medo do escuro

Sim, os cegos enxergam e muitas vezes mais colorido que nós - que achamos que pra ver basta que a luz entre pelos nossos olhos.
Sim, palavras se propagam no vácuo, mesmo que silêncio.

Meus silêncios de fato andam mais longos. Palavras rarefeitas, tateando entre a luz que cega e a imaginação de olhos assustados. Semi-abertos. Empedrados talvez. De tanto, ou tão pouco ver.

Faz dia bonito! Meus sentidos todos me gritam.
Te ouço e sei que pode me ver. Sou palavras novamente. Mais que qualquer outra coisa enquanto me escrevo.

Os livros realmente nos escolhem. Nós somos atraídos por eles.
Faltam poucas páginas pra terminar meu Saramago e eu sigo lendo devagar. Quase com medo de terminar.
Preciso entender minha cegueira antes da última página.
Todos precisamos.
O livro acaba. Eu ficarei.
O livro também, provocando outros cegos e eu preciso enxergar.

Quero mto ver melhor! Às vezes enxergo tão nítido. Mas ver exige cegueira, senão cegamos totalmente.
É como as palavras, pra que se formem escolhemos umas letras, outras não.
Frases são sons e silêncio. Visão, como luz e escuridão.

Fui a um jantar no museu "diálogos no escuro". Foi semana passada.
Na entrada ganhaei uma bengala, meu guia era um cego.
Por uma hora a cegueira dele me conduziu.
Imaginei um mundo no escuro. Senti como o som se propaga no ar. Toquei lugares. Conheci vozes. Fui palavras, sentidos e silêncio.

Depois jantei sem olhos também.
Descobri que tenho pouco paladar e um olfato ruim.
O garçom, também cego me serviu.
Na escuridão, ele enxergava muito mais que eu.
No claro, talvez enxergue também.

Foi inesquecível. Tenho memórias sensoriais agora, elas são claras e espaçosas. Como se ocupassem parte pouco conhecida do cérebro.

"No escuro, quem não fala, não existe" - diziam os cegos.
Com eles aprendi que, no escuro só há sentido quando se fica parado, se não houver o silêncio.

A semana começa,
Que ela venha cheia de boas imagens pra acompanhar os ruídos incessantes da vida que pulsa nas veias fazendo barulho.

domingo, janeiro 20, 2008

FELIZ ANO NOVO!

Há exatos 7 meses e 18 dias não escrevo.
Foi um silêncio intenso de quem cresce, se apaixona, de quem sofre, de quem goza, de quem vive.
Senti saudade.
Antes que alguém me pergunte o porquê da ausência, pergunto-me eu, assim fico mais a vontade ao ME deixar sem resposta.

Penso que talvez assim, de volta eu consiga uma revelação.
As palavras sempre me ajudaram nisso, sei que desta vez não será diferente.

EM BUSCA DA TRILHA eu encontrei muita gente...
Conheci um pouco do outro lado do mundo,
Fiz coisas de que me orgulho,
mas senti medo também.
Descobri alegria em coisas grandiosas.
Não esqueci das pequenas.
Dormi demais, mesmo dormindo de menos.
Li pouco, mas ouvi muito.
Me encantei. Aliás, continuo encantada!

Foram meses simples, longe de muita gente, às vezes até mesmo de mim.
Andei por aí sem pensar e pensando tanto que quando penso nisso acabo confusa. Deixo pra lá.

Teclar estas palavras - sete meses caladas é quase como tirar a roupa.
Me sinto nua de mim.
Sorte ainda haver tanto por revelar.

Me dou as boas vindas!

domingo, maio 20, 2007

Cabelo

Queria palavras agudas pra reagir a gravidade.
Precisava com urgência de um grito. De eco.
Uma dose pouca, mas real de liberdade pra desejar o que não tenho.

Ontem, montei a rede num lugar diferente.
Mas as árvores nos conheciam, lembra?

De certo não lembra.
Chovia e hj era sol.

Talvez lembrasse...

Não há como saber.

Meu verbo é mudo. Seu silêncio agudo.
É noite, é grave e realmente não há como saber.

Te encontro no acaso. Acaso que é fio. Me conduz.
Eu te guardo.

Bastaria um jeito simples, jeito qualquer...
Caminho curto que me levasse até onde não sou, senão ausencia.
Mas antes seria necessário ser ausencia.
Como se sou não sei. Não sou.

Se o que falta faltasse simplesmente, eu não estaria aqui. Estaria lá.
E não haveria noite. E haveria sorrisos. E não haveria o medo - esse que não há.
Não há?

A droga é que falto eu! Onde, como e na hora que eu não poderia faltar.
Sobram motivos pra essas palavras vazias.
Tantas. Inúteis. E pra ninguém.

quinta-feira, abril 26, 2007

Sobre calos e escuro

Mta gente teme o escuro. Talvez porque seja uma das possibilidades de se ficar só, completamente sozinho consigo mesmo.
Eu não.
Tenho outros meios de me buscar, gosto de me encontrar em dias de sol.

Fico imaginando como seria a paisagem de uma perda.
Olhar que escapa.
Imagem que não revela.
Penso numa teoria da arte que seja a materialização da entrelinha.
Entrelinha pura, real: que revela sim, enquanto se perde.

Não me sinto a vontade com as perdas, elas levam pedaços da gente.
Prefiro os encontros, que nos unem ao que sempre esteve perdido, inacessível.
Mas há beleza no que se escapa. E há revelação no que não se diz.

Acho a revelação natural.
Tenho poucos segredos silenciosos de verdade. Mas sei que eles são sempre partes importantes de mim.
Ignoramos o que não entendemos.

Segredos, em suma, são faces da nossa personalidade que nos recusamos em determinados momentos a reconhecer.
Algumas revelações são realmente necessárias.

terça-feira, abril 24, 2007

Estou livre: serei verdadeiramente feliz.

Ordens de uma criança. A mais doce e a mais linda!
Sei que depois desse abraço eu sou outra, por mim e graças a ela.
Nos despedimos do medo, sorrindo. Sem culpa.
É dia de rasgar os roteiros. Rasguei.
Chega de planos!
Não precisamos mais de provas.
A vida que nos surpreenda!

Revelar

''Você já esteve num laboratório fotográfico?
Eu já. E como me fascina, naquela escuridão, poder ver tudo avermelhado!

Cada imagem que aparece naqueles papéis em branco é fruto de uma espera cuidadosa, de uma mágica que tem tempo certo pra acontecer.
Se nos apressarmos, nada vem...
Se demorarmos demais, o que vem, vem queimado.
Se houver qualquer fresta de luz por baixo da porta, ou pela violência do vento - que pode abrir a janela... tudo pode se perder.

Aprendi com a fotografia que cada revelação tem seu próprio tempo.
O tempo de acontecer, mesmo que pareça errado.
Sim, é claro, podemos violentá-la e arrancá-la às pressas, à força. E o que vem? Uma revelação estranha, quase sempre pela metade.

Mas as revelações são necessárias. São boas. São resultado da luz - que eu tanto gosto!
O contraditório é que elas só aparecem no escuro.''

segunda-feira, abril 09, 2007

Dia de estréia abençoada (SONHO)

"Sonhe com aquilo que você quiser…
Seja o que você quer ser…
Porque você possui apenas uma vida
E nela só temos uma chance de fazer aquilo que queremos.
Tenha felicidade bastante para faze-la doce,
dificuldades para faze-la forte,
tristeza para faze-la humana.
E esperança suficiente para faze-la feliz.

As pessoas mais felizes não tem as melhores coisas,
elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos.
A felicidade aparece para aqueles que choram…
Para aqueles que buscam e tentam sempre…
E para aqueles que reconhecem a importância das pessoas que passam por suas vidas.
O futuro mais brilhante é baseado num passado intensamente vivido.
Você só terá sucesso na vida quando perdoar os erros e as decepções do passado.
A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar……duram uma eternidade…"

C.Lispector

Foi com essa mensagem que a Ana Maria abriu o programa de hoje.
Programa de reestréia, programa da minha estréia.

Quem me conhece sabe o quanto Clarice é importante.
Quem me conhece um pouquinho mais sabe o quanto hoje foi importante!
Agora, quem me conhece profundamente, sabe que não acredito em coincidências. Sabe que essa mensagem tem pra mim um sentido mais do que especial.

A todos aqueles que fazem parte desse sonho, meu muitíssimo muito obrigada.
Mais que isso, quero dividir com todos essa intesa alegria!
Quero que a gente siga junto! A missão é sonhar, realizar ainda mais e cada dia melhor!

OBRIGADA DEUS!!!

segunda-feira, março 19, 2007

Ontem foi ao ar meu último Profissão Repórter

Durante um ano dividi a tela com gente importante: homens e mulheres de pouca chance, de muita luta.
Guerreiros do tipo que raramente se percebe.
Anônimos que mudaram minha vida.

Estive em lugares que ninguém sonha conhecer.
Dei voz e principalmente os ouvidos a histórias de quem caminha calado.
Caminha bastante.

Fui parcial todas as vezes.
Me envolvi.
Abracei, carinhosamente cada um de meus colegas de filme. Filme que é vida real.

Senti o peso do podão da cana, o medo da bala perdida.
A indignação.
Experimentei o calor de acordar sob a lona de circo rota.
A brisa compadecida do teto de pau a pique.
O gosto do fogareiro de Dona Doca - dona do riso mais puro.
Risada da própria risada.

Revisitei a solidão do cárcere feminino.
Caminhei com vendedores de sonhos... Batedores de balde.
Mascates de terra batida.
Encontrei a saudade e a coragem nos pais que perderam seus filhos. Descobri com eles minha mortalidade.
Ela é borboleta verde.

Fui as ruas, ao agreste, as delegacias...
Vi mulheres sangrando por dentro e por fora.
Ouvi seus agressores.
O apito do enfrentamento. Apito alto, do Morro da Conceição.
Escutei gritos também:
Os de quem briga, no porto por uma vaga na estiva; os de quem não mora, resiste por um lugar na vida - ainda que sem-teto.
Fui testemunha de Edna; dos desenhos de Ingrid, das mangas de Israel, da cura de Isadora.

Não fiz isso sozinha, tive parceiros incríveis!*
Foi um ano intenso. De muito sonho, pouco sono, pouco tempo.
Defendi cada palavra a mim confiada como um tesouro.

Não quero medalha!
Sigo adiante.
Na bagagem vai toda essa gente e a mesma inocência de quem acredita que as grandes histórias só existem dentro do coração das pessoas.

(Gratidão aos incríveis...:
- Caue Angeli, Michael Fox e Emilio Mansur pelo cuidado e capricho com nossas imagens.
- Doniste Araújo pela parceria de ilha nos dias, noites e madrugadas de luta.
- Aos melhores chefes do mundo: Marcel Souto Maior e Caco Barcellos pelas lições e pela oportunidade
- Caio Cavechini - meu companheiro nas buscas mais difíceis – por dividir comigo seu olhar curioso, fantástico; pela cumplicidade, pelas provocações e principalmente por me ajudar a quebrar os meus próprios padrões!)

E viva a nova fase!!!

sábado, março 17, 2007

Alagamos São Paulo?

"Escrevo-te porque não me entendo.
Embora escrever só esteja me dando a grande medida do silêncio.
Nada existe de mais difícil do que o entregar-se ao instante. Esta dificuldade é dor humana. É nossa.
Eu me entrego em palavras.

Não sei captar o que existe, senão vivendo cada coisa que surgir e não importa o quê.
Escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra.
O que te escrevo deve ser lido rapidamente como quando se olha.
O que te falo nunca é o que te falo e sim outra coisa.
Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada.

O que escrevo é um só clímax?
Meus dias são um só clímax. Vivo à beira.
Cada coisa tem um instante em que ela é.
Quero apossar-me do é da coisa.
Porque ninguém me prende mais.

Agora é de novo madrugada.
Ao amanhecer eu penso que nós somos contemporâneos do dia seguinte.
E eu tinha resolvido dormir pra poder sonhar. Estava com saudades das novidades do sonho...

Domingo é o dia de ecos. De onde vem o oco do domingo?
Estou esperando a próxima fase. É questão de segundos.
Falando em segundos, pergunto se você agüenta que seja hoje e agora e já.
Sinto-me tonta como quem vai nascer.
(Você me deixa tonta)

Quero a experiência de uma falta de construção.
Não.
Não é fácil.
Mas é.
E ninguém é eu, ninguém é você. Esta é a solidão.

A palavra mais importante da língua tem uma única letra: é. É.
Sou-me.
Não se compreende música: ouve-se. Ouve-me então com teu corpo inteiro.

Ninguém me ensinou a querer. Mas eu já quero.
Levantei. Porque estou cansada de me defender.
Sou inocente.
Até ingênua porque me entrego sem garantias.
Que garantias?
Respiro de noite a energia. E tudo isto no fantástico.
Fantástico: o mundo por um instante é exatamente o que o coração pede."

C.L. e eu

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Companhia de viagem

Queria tanto ler alguma coisa. Qualquer texto que me fizesse algum sentido e preenchesse o vazio dos outros e o excesso de mim dos últimos dias.
Queria, mas por estar o livro mais próximo a dezenas de quilômetros de mim, resta-me apenas imaginação. Nela garimpo frases perdidas, não escritas... Consigo papel e caneta.
Ponho as palavras pra fora, em seqüência, como quem organiza a própria casa. Fora de casa.
Meu redor são barulhos, são ecos... Sotaques misturados, a margem do rio, Preguiças...
Quando digitar (ou não) esses pensamentos soltos, já longe daqui será no meio de dezenas de livros que vão me encarar invejosos. Essa falta de agora não existirá e talvez todas essas frases não façam mais nenhum sentido.
Não ligo. Por enquanto são pra mim mais que companhia.

domingo, janeiro 28, 2007

Sem perguntas, sem respostas

Quando se viaja sozinha, sobra tempo pra pensar em quase de tudo.
Há dias, tenho horas inteiras pra mim. É tanto tempo.
Quando estou distraída, fico prestando atenção... E há tanto pra ver.
Agora mesmo, sorri de repente. Rápido, espontâneo, bonito.
Por alguns segundos, me senti quase feliz.

Mas tenho pensado também em outras coisas, não sou egoísta. Observando as crianças, aprendo com elas.
Pequeninas, elas perguntam tudo. Não tem a vergonha da gente. Elas são curiosas, desbravam enquanto nós, adultos apenas contemplamos nossa falta de curiosidade..
Horas atrás, junto com um grupo de turistas, passeávamos na carroceria de uma caminhonete, em silêncio até que uma garota de uns seis anos fez uma pergunta. Queria saber porque o fogo era vermelho.
A mãe dela desconversou, todo mundo ficou calado, ninguém sabia.
Segundos depois, uma nova tentativa... “Mamãe, porque a gente tá tão longe, e mesmo assim sente o cheiro do fogo?” A resposta mais uma vez foi um pesado silêncio, seguido de uma bronca: “menina, você pergunta demais!”.
Também levei uma bronca, de mim. Como eu desisti dessas e de tantas outras perguntas?

segunda-feira, novembro 06, 2006

O SONHO DE EDNA


Contar a história de um prédio prestes a ser desocupado - era essa a proposta da reportagem que escolhemos como primeiro desafio. Pelo menos era isso que imaginávamos, há quase um ano, a caminho do edifício Paula Souza, no centro de São Paulo.

Mas logo na primeira visita descobri que o prédio tinha alma e ela era muitas, pelo menos a de 196 famílias que viviam lá. Cada uma com uma história própria e um destino difícil de prever. O desfio aumentava e se multiplicava em cada andar, a cada porta que se abria e dividia conosco o tanto e o quase nada que guardavam.
Num canto, entre a laje do térreo e a do primeiro andar encontrei Edna, uma matogrossense da qual nunca mais esqueceria. Ela dividia o espaço de pouco mais dez metros quadrados com o marido e os quatro filhos. Em visitas diárias, acompanhei por uma semana os preparativos para a mudança, a contagem regressiva para o despejo.
Os filhos de Edna: Ingrid, Israel, Igor e Isadora tinham muitos sonhos, entre eles o maior era voltar pra Campo Grande. Edna só tinha esperança.

Lembro que voltava pra casa pensativa, ansiosa pelo retorno, bagunçada com uma outra mudança – a que acontecia comigo: mudava minha noção de espaço, miséria e força de vontade.

Na época o quadro ainda estava em fase de teste. Só estrearia sete meses mais tarde. As fitas com dezenas de histórias, inclusive a de Edna ficaram no armário, aguardando pelo momento em que seriam contadas. O momento chegou*
No dia 19 de agosto, ainda mais ansiosa reencontrei Edna, desta vez com muitos sonhos e ainda mais esperança. Visitei a casa simples pra qual se mudaram na periferia da cidade. Lá recebi algumas das lições e dos abraços mais sinceros dos últimos meses.

Ela que hoje pensa em voltar a estudar administração e ter um emprego formal me contou o paradeiro dos vizinhos com muito pesar. A maioria não teve a mesma sorte e hoje vive absolutamente sem sonhos sob os viadutos do centro, nas favelas da cidade, ou mesmo em outros prédios ocupados.
Revê-la foi como revisitar aquele prédio, reviver o sentimento de impotência que conheci naquela semana.

Pra quem esperava simplesmente contar a história de uma reintegração de posse, a mudança de planos foi grande.

Assista a reportagem em: http://gmc.globo.com/GMC/1,,2465-p-M573244,00.html

quarta-feira, outubro 25, 2006

DIÁLOGO

- Bebendo de novo!
- A noite tá fria.

(silêncio)

- Tá boa pelo menos?
- Nada. Falta açúcar, pouco gelo. Já tomei melhores.
- Bom, você também já...
- Já.
- De novo...
- De novo, igual. Quer dizer diferente... Hun, admito, foi igual!
- Mais vodca? Te acompanho.
- Não me entenda errado, mas não quero vc por perto.
- Posso esperar no carro?
(...) Ou na cama?
- No carro sim, no quarto não. Me leva pra casa! Mas me faça um outro favor, me deixa dormir sem vc!

(silêncio maior ainda)

- E amanhã?
- Amanhã é de dia e eu me distraio. A noite é que dói.
- Por isso mesmo. Precisa de mim, agora!
- Preciso é de cada nervo descoberto,
(... ) Você já fez dos outros covardes o suficiente pra eu estar aqui. Ou de mim corajosa demais.
- Acha então que a culpa é minha?
- Não, só não me acho.
- Vamos embora? Eu durmo na sala.
- Não sei com quem ficou a chave de casa.

- Precisa de um chaveiro?
- Preciso é de alguém pra pular o meu muro.

domingo, outubro 22, 2006

Respeitável circo



A missão não era das mais fáceis: encontrar um circo baiano que representasse o melhor da tradição circense nordestina. Como os circos têm que notificar as autoridades para se instalar, comecei fazendo contato com as prefeituras e delegacias de dezenas de cidades no interior da Bahia. Consegui conversar apenas com representantes de circos de médio e de grande porte. Percebi que não era por telefone que conseguiria essa história. A solução foi viajar e produzir a reportagem pessoalmente.

Do avião, eu comecei minha busca: vi um circo lá de cima! Em terra, o encontrei, mas o circo não servia, era grande, muito comercial. Eu queria a rusticidade, a arte pela arte e pela sobrevivência. Viajei para o interior do estado, encontrei circos picaretas, circos que ainda mantêm animais enjaulados em péssimas condições. Num fim de tarde, na periferia da cidade de Eunápolis, no sul da Bahia avistei um palhaço. Ele caminhava sobre pernas de pau e, cercado por crianças, anunciava um espetáculo. Acompanhei o grupo. Instantes depois vi um circo pequeno, armado num campinho de areia, a lona remendada e um tapume como bilheteria.

Fui recebida com hospitalidade. Os artistas que viviam ali eram ainda mais simples que o lugar. Em poucos minutos acabei encantada com as histórias da trupe. Seduzida pela humildade daquela vida que eu só conhecia dos livros e da imaginação: amores, sonhos, precariedade, dor, alegria. Não tive dúvidas, minha busca havia terminado.

No dia seguinte, gravamos.

(Veja a matéria clicando aqui: http://gmc.globo.com/GMC/1,,2465-p-M558788,00.html

quinta-feira, outubro 12, 2006

Gato mia!



Era cedo.
Um grito anunciava o começo do jogo! Com a luz apagada a gente se escondia no quarto e ficava miando até ser encontrada.
No final desses encontros, apostávamos corrida entre dois postes da calçada.
Quem vencia não importava. Os quatro primos sempre ganhavam.

Era muito cedo. Era nossa infância.
Do quarteto, uma amizade era a mais especial: éramos as "primas N", Nádia e Nicolle!
Nos tempos de vida no campo, nos nossos anos mais divertidos, dividimos o que a gente tinha de mais valioso.

A Ni foi minha melhor amiguinha. Juntas, criamos incontáveis brincadeiras... Fomos inventoras, poetas, aventureiras, professoras, desbravadoras de mundos que só a gente conheceu.
Hoje, vasculhando a memória, encontro as passagens secretas de tantos desses universos que não cansávamos de descobrir no meio do mato e... eu queria muito que alguma dessas passagens a trouxesse pra perto de mim.
Não traz.

A única forma possível de reencontro me parecem as palavras.
Queria saber traduzir de alguma forma os rios de lembranças cheios de saudade que inundam a criança que ainda vive dentro de mim – criança que certamente segue com ela. Só nesse encontro consigo chegar um pouco mais perto da menina Nicolle.
Dentro de mim ela corre, e brinca e me sorri como se nada tivesse acontecido nos últimos anos que nos levaram pra longe.

Todas as nossas molecagens me parecem ainda tão reais!
Cada recordação tem cheiro, tem som. É terra, é mato, amoras; barulho de bombinhas, do vento, dos passarinhos, da voz dela concordando comigo... Topando mais uma aventura, a invenção de um novo lugar.

Não lembro quando paramos de apostar corrida na rua. Mas desde lá, nossas vidas seguiram rumos diferentes.
Nossa imaginação fez de mim jornalista, dela arquiteta. Ni escolheu construir realidades, eu contar as histórias do mundo real.
Caminhos parecidos, caminho separado.
Crescemos, nos perdemos, mas isso não importa.

Vejo que ainda que com 26 anos, pra mim nosso tempo não passou. Aqui dentro, a Ni ainda é aquela garotinha corajosa que acreditava sempre em mim e topava qualquer brincadeira!
É como se a gente tivesse parado o tempo na melhor fase da vida, em que fomos somente inocência!

Não por acaso, hoje, ironicamente no dia das crianças ela foi embora, levando qualquer possibilidade de deixar de ser pra mim e pra sempre apenas(?) infância.

Também hoje, descobri que ela ainda me ama. Foi aqui na internet - que sei que era um de seus brinquedos atuais preferidos (ela faz parte de uma comunidade criada pra mim no orkut... Só agora percebi.)
Não tive a oportunidade de dizer a ela que eu também a amo. Nossa amizade nunca foi de declarações, foi ação. Mas sei que ela sabia, sempre soubemos.

Agora no quarto, de noite... Num escuro parecido com o dos tempos do gato mia, escondida da minha própria tristeza, deixo que nossas melhores lembranças me encontrem. Sei que essa é a maneira mais bonita de a gente matar a saudade!

sábado, setembro 09, 2006

VIDA URGENTE


O desafio da equipe era grande: fazer uma reportagem que reconstituísse o acidente na lagoa Rodrigo de Freitas, mostrasse os perigos da mistura álcool e direção e contasse a história de outras vítimas para reforçar o alerta. Tínhamos um mesmo dia pra gravar em três cidades, um mutirão de edição pela frente. E eu tinha um fantasma pra enfrentar.

Começo de madrugada.
Há exatamente um mês, eu tentava me distrair do sono, enquanto meu carro me levava quase sozinho pra casa. Num cruzamento, o cansaço me venceu. O sinal estava fechado e eu só não avancei cegamente contra dezenas de outros automóveis, porque praticamente destruí o meu carro num veículo que havia respeitado o sinal. Foi essa a lembrança que me acompanhou durante toda a semana.

A cada desabafo dos pais das vítimas em Porto Alegre, eu ouvia os meus próprios pais. A cada história interrompida de gente jovem como eu, era inevitável repensar minha própria história: momentos como os do acidente e tantos outros em que dirigi ou andei com amigos sem condições pra levar o carro com segurança. Há reportagens que mudam o mundo. Há também aquelas que, antes disso, mudam quem as faz. Desta vez foi assim.

* O projeto VIDA URGENTE funciona em Porto Alegre, mas mantêm grupos em várias partes do país. Para saber mais acesse: www.vidaurgente.com.br

** Assista a matéria: http://gmc.globo.com/GMC/1,,2465-p-M537413,00.html

segunda-feira, setembro 04, 2006

...


Há horas que dão início a meses.
Copos que fermentam revoluções,
Idéias, ainda que contraditórias, que se completam.
Pedem mais horas, mais meses, mais anos...

Há paixões possíveis, ainda que inviáveis.
Reinventáveis, inesgotáveis...

Há beijos, não beijos
Assunto de sobra.
Rotina que falta!
Acordos e desacordos,
consenso.

Pra tanta inocência,
há também parquinhos!
Montanha-russa, trem fantasma
Sustos, sobe-desce, frio na barriga...
Desafios a física!

Há adolescência!
Encontros quase infantis
Desejos?
E há, sobretudo amizade.
(Cumplicidade pra toda vida, por esse crime que: não? cometemos.)

domingo, agosto 13, 2006

Profissão mulher


Defendi a reportagem desde a primeira reunião de pauta do quadro, em abril. Foram meses esperando a hora certa de sair a campo... Quando finalmente cheguei no Recife, achava que estava preparada... Me enganei. Logo na primeira entrevista, com as mulheres do apitaço, fiquei com medo! Só ali e naquele momento, testemunhando a força daquelas pernambucanas senti o tamanho da responsabilidade do que estávamos fazendo.

Com o passar dos dias e a convivência com outras histórias de grito e silêncio... O medo foi virando coragem. Coragem pra traduzir a dor das famílias que perderam mães, filhas, irmãs... Coragem pra ouvir a voz dos agressores.

Foram dias de entrega em que digeri como pude a revolta da Nádia mulher, da Nádia jornalista, da Nádia feminista.

Cresci ouvindo de mulheres que amo e admiro, histórias de violência doméstica. Foi impossível não levá-las comigo a delegacia, a periferia de Caruaru, a Olinda... Essas vítimas - as de minha memória e as ainda presentes - me acompanharam por todo lugar. Se identificaram com muitas das dores que testemunhei e sem dúvida me ajudaram a merecer a confiança das donas dos gritos; silenciosos, ou não.

Ao registrar a ousadia dessas novas vítimas, que não se esconderam em nenhum momento da nossa câmera, de alguma forma senti que além de dar voz a suas angustias, também dividi com elas meu próprio inconformismo.

No jornalismo se discute muito a imparcialidade. Nessa reportagem assumo, fui parcial! Não poderia agir de outro jeito; afinal antes de ser repórter sou mulher! Essa é uma vantagem do quadro, ele te permite ser humano; com suas convicções e vivências, sem deixar de ser repórter.

Talvez não seja possível mudar o mundo simplesmente com histórias e palavras... Mas saio dessa reportagem com mais certeza, de que se elas ajudarem as pessoas a identificarem sua situação de opressão e lhes derem informação como arma pra reagir, o trabalho valeu a pena.

Assista a reportagem: http://gmc.globo.com/GMC/1,,2465-p-M521044,00.html

Profissão Repórter

domingo, agosto 06, 2006

Parada obrigatória

Quando a gente acelera demais, a vida dá um jeito de obrigar a gente a parar. E... Ontem foi dia.
Bati o carro chegando em casa, fatigada, dormindo ao volante.
Com o susto e o estrago eu devia ter ficado nervosa. Não fiquei.
Uma calma de quem sabe que o mundo não pára por acaso tomou conta de mim.
O tempo segue me atropelando, mas o recado tá dado. Se eu quiser sobreviver a velocidade dos dias é melhor me manter viva, acordada e descansada... Principalmente de noite.

quarta-feira, julho 19, 2006

Há quase um mês...

A vontade de escrever me persegue, mas faltava atitude.
Pra comemorar esse reencontro apaixonado, hoje não vou falar nem de palavras, nem de trabalho. Quero contar uma história, daquelas bobas, gostosas de ouvir.
Do tipo que começa com era uma vez...
E de fato era...

Um dia há muito tempo, duas crianças brincavam de patinar na neve.
Felizes? Talvez. Mas certamente alegres, pois fazia sol e era inverno - a gente sempre se alegra, ainda que triste quando faz sol no inverno.
Também é certo que se divertiam, porque não há como não se divertir em boa companhia quando somos anjos inocentes. Enfim, brincavam até que o gelo sobre o lago rompeu e uma delas caiu e ficou submersa.
Ao ver a amiga presa, a pequena colega se desesperou e tentou ajudá-la. Quase sem forças, porque de fato era muito pequenina, a menina tirou um dos patins e começou a golpear o gelo.
Golpeava e gritava por socorro, golpeava e gritava.
Até que conseguiu... Salvou a amiga.
Nesse momento a ajuda chegou. Vizinhos assustados com os gritos correram para o local. Surpresos buscavam, sem sucesso entender como uma criança tão frágil podia ter conseguido tal feito: romper uma grossa barreira de gelo e salvar a amiguinha.
Passaram muito tempo discutindo, enquanto a garota se aquecia.
Ninguém parecia ter explicação até que um sábio que passava pelo local se intrometeu na convesa e esclaresceu a questão. Ele disse: a resposta é simples, a menina conseguiu salvar a amiga porque não havia ninguém por perto pra lhe dizer o que ela não era capaz de fazer.
Sábia resposa!

Adoro essa história.
Um conto simples, delicado.
Por sem/cem razões, tenho pensado muito nele nos ultimos dias.

terça-feira, junho 13, 2006

Santo Antonio,

Eu queria um namorado que não fosse bem um namorado!
Queria um presente diferente...
Algo assim, que venha sem o selo chato das convenções, sem garantias e que me ajude a reinventar as regras. Todas!
Alguém imprevisível, que surpreenda, me conteste, me questione.
Ah... E que em vez de certezas, me dê apenas abraços e frio na barriga.

segunda-feira, junho 05, 2006

Julgamento de quem?


Era a minha primeira cobertura de um julgamento, era a primeira vez que eu entrava num tribunal. Depois de me inscrever junto com outras cinco mil pessoas para ocupar um dos 80 lugares do plenário, destinados ao público e não ser sorteada, eu estava quase conformada com a idéia de acompanhar tudo do lado de fora. Quase.

Minha missão era mostrar a movimentação de curiosos, no circo armado para o julgamento. Com a chegada dos sorteados, entrei no fórum, despretensiosamente. Meu objetivo era conversar com alguns deles, saber quem eram essas pessoas e marcar algumas entrevistas pra depois da sessão, mas me surpreendi. Sobraram vagas. A imprensa estava toda lá fora e eu era a única ali dentro, a única que sabia disso!

Há dias, centenas de jornalistas se acotovelavam por uma das poucas credenciais disponíveis, quase enlouqueceram a assessoria de imprensa do Tribunal de Justiça... De repente, algo muito melhor que a tal credencial estava ali diante de mim e só de mim!

Acompanhei a sessão de perto. O espaço reservado aos jornalistas ficava ao fundo, do lado oposto ao das cadeiras ocupadas por Suzane e os irmãos Cravinhos. O meu ficava bem diante deles, de seus advogados de defesa e no meio do público. Os curiosos, meus entrevistados, nessa altura já meus quase-conhecidos eram o meu termômetro. Como num estádio de futebol em dia de decisão, vaiavam, aplaudiam e torciam, mais pela não-desmoralização da justiça do que pela condenação dos três réus confessos. Havia um clamor por acreditar que dessa vez não seriam permitidas manobras, que haveria uma reação, uma forma de ela-justiça provar que pode ser soberana. Não foi.

O julgamento foi adiado e são muitos os recursos que podem ser usados para que no dia 17 de julho, o mesmo aconteça. Resta a certeza, de que haverá um novo circo, com os mesmos expectadores e a mesma torcida. Meu ingresso, está garantido.

Veja a reportagem: http://gmc.globo.com/GMC/1,,2465-p-M479742,00.html

domingo, maio 28, 2006

Fellini, o sábio e o meu jornalismo

"Nunca pensei em me tornar diretor, mas a primeira vez que entrei num estúdio e gritei: luz, câmera, ação, corta! Percebi que aquilo era eu, aquela era a minha vida." A frase é de Frederico Fellini, diretor italiano, mas é na minha cabeça que ela tem reverberado muitas vezes nos últimos tempos.

Escolher uma vocação é das missões mais difíceis. Talvez porque não exista escolha, é ela que escolhe você.
Sempre gostei de ouvir e contar histórias. Quando pequena ouvia muitas e a exaustão. Não contente com as infantis - destinadas a mim, exercitava o silêncio e a atenção para ver o que diziam as vozes por trás das portas, em mesas distantes, na ruas... Depois, contava para mim mesma, repetidas vezes todas elas... Misturava os pedaços, as deixava parecer ainda mais interessantes...

Lembro da alegria de ganhar meu primeiro gravador. Um brinquedo enorme pra uma criança. Daqueles antigos, grandes e coloridos. Encantador! Era como se finalmente eu pudesse eternizar as histórias, que eu achava tão importantes... E ainda podia multiplicar meus ouvintes.
Caprichava! Contava cada uma com emoção, realismo. Pedia ajuda aos adultos, as outras crianças. Gravava as participações e recheava cada momento de barulhos que inventava com as coisas mais simples... Eram passos, batidas de porta, apertões no cachorro, panelaços... Adorava o resultado... Ouvia ansiosa, mostrava pra todo mundo e escondia as fitas...
De tão escondidas - para uma posteridade que eu imaginava que viria - a maioria delas se perdeu. Mas a magia não.

A primeira vez que eu vi uma gravação de tv e senti o poder de contar histórias que aquela coisa tinha foi como reencontrar com meu velho gravador e minhas fitas perdidas... Melhor! Não era mais necessário inventar. As histórias reais podiam ser captadas com imagem e som originais. De novo, era eu ali... Aquilo era a minha vida!
Tantos anos depois, ao entrar duma vez em dezenas de milhões de casas e falar diretamente ao coração de tantos outros milhões de pessoas... Tive a mesma certeza que, ainda criança eu já tinha. A certeza de Fellini.

Como se não bastasse... Dia desses tive tal certeza confirmada por um outro sábio. Nos encontramos quase sem querer no Parque do Ibirapuera. Ele, um velhinho, corria... Eu deitada na rede, lendo chamei a atenção dele. Conversamos com a verdade com que só os estranhos, ou quase-estranhos conversam... Depois de uma hora de aula de filosofia e metafísica, perguntei a esse homem - que certamente eu nunca mais verei – qual era a maior lição que a vida havia lhe ensinado.
(Eu e minhas perguntas!)
Ele respondeu, sem hesitar: "a sensação de feedback! Seja qual for a pergunta, as respostas estão todas por aí, só precisamos reconhece-las. Quando encontramos algo que fala ao nosso coração e responde na mesma intensidade as nossas expectativas naquele momento mágico, as peças do quebra-cabeça se reconhecem, se encaixam. E... isso é simples, como olhar no espelho."
Feedback...
Para mim e para esses dois sábios... É essa a tal mágica da vida!

quinta-feira, maio 25, 2006

Visitantes ilustres...

Tenho conversado muito com personagens históricos da minha vida, mesmo quando estou só. E e ando bem só...
Eles me procuram. Me contam segredos, me provocam. São como alucinações. Mas não são.
Eles preferem os sonhos.
Aparecem dentro de mim, ainda dormindo e seguem comigo por horas... Outros, mais atrevidos surgem já de dia, ou no começo da noite... De repente, no trânsito, ou mesmo pra me fazer companhia durante um café, ainda que acompanhada.
Às vezes conversamos, outras simplesmente ficamos em silêncio... Descubro como foram os últimos dias – deles, meus personagens. Que outras histórias andam vivendo, o que pensam sobre as manchetes do noticiário, se mudaram o corte de cabelo e... suas impressões sobre meu novo trabalho.
Certas visitas são tão reais que deixam qualquer coisa no ar, na boca, nos braços... Sim, sem perceber matamos saudades!
Eles vem sempre sozinhos. Amigos, mas principalmente amores. Um de cada vez... Uns bem mais de uma vez, é verdade!
Os vividos, e os que se perderam antes mesmo de acontecer. São visitas confusas, quase encantadas.
Juntos eu, passado e futuro caminhamos no agora, atemporais.

Passa uma borboleta... É amarela!

Voamos com ela. Tudo é só ali e tão honestamente bom - apesar de fugaz - que eles, os dias passam leves e velozes como elas, as asas da borboleta.

sábado, maio 20, 2006

Profissão bóia-fria


Foram quatro viagens em busca da notícia. Quatro mil quilômetros de estrada para chegar perto dum universo de exploração, parecido com o das roças de quinhentos anos atrás.
Viagem de carro, viagem no tempo!
A grandeza da indústria esconde a dor de homens, que aos milhares cortam em média dez toneladas de cana por dia. Trabalho sob sol quente, quase nenhuma proteção e em troca de pouco dinheiro.
Depois de algumas tentativas, conseguimos emprego sem registro e sem equipamentos de segurança. Um ônibus caindo aos pedaços nos aguardava pouco depois das cinco da manhã. Deixou-nos na beira de uma estrada, de onde nossos patrões nos levaram até o local do corte. Tudo a base do disfarce e da superação do medo, inimigo bem forte.
Lá, cerca de cinqüenta homens aguardavam sobre o frio do dia que nasce, pelo sol que logo nos acompanharia até o fim da jornada. Eu era a única mulher e o que por um lado me encheu de orgulho, também aumentou a sensação de insegurança.
Olhares desconfiados, cabeças baixas e... Muita oração!
Trabalhamos por pouco mais de duas horas, cortamos - em dois - meia tonelada de cana, o equivalente em dinheiro, a um real.
Registramos a dureza do trabalho e em que condições os cortadores sobrevivem. Exaustos e acreditando que a missão havia sido cumprida, fugimos pela estrada na companhia do medo, aquele... Mas nessa altura já muito pior, de sermos descobertos.
Ainda hoje me pego calculando o tamanho do risco e da crueldade da roça. O corpo dolorido, mal se controlava. Braços e pernas não obedeciam. Sem controle, no estágio anterior as câimbras, simplesmente doíam.
Quando penso no que poderia ter acontecido se nosso disfarce de bóias-frias fosse descoberto, gelo na espinha. Ali, longe da cidade, a quilômetros de qualquer autoridade... Fomos malucos, sabemos. Mas era esse o único jeito.
Ainda penso muito nas engrenagens do sistema de exploração que transforma quase todos os seus personagens em vítimas, ainda que vilões. Me sinto triste, quase impotente.
Agora, prestes a ver o resultado, sei, ansiosa... que talvez seja pretensão demais achar que essa loucura que fizemos possa mudar a crueza do corte, regras que imperam nos nossos canaviais desde nossa colonização. Mas gosto de pensar que revelamos pelo menos um pouquinho de onde essa ferida brasileira, quase esquecida, dói e durmo tranquila.

** Veja a reportagem: http://gmc.globo.com/GMC/1,,2465-p-M462182,00.html

Segunda parte: http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM462182-7823-PROFISSAO+REPORTER+UM+DESAFIO+NA+COLHEITA+DA+CANA,00.html