Quinta-feira, Agosto 13, 2009

IPÊ AMARELO


É inverno e a maioria das flores está calada. Os galhos nus, tímidos. As folhas no chão, entregues ao vento.
Não todas, algumas árvores são resistência. Pelo menos a minha preferida é.
Ela tem nome de cor, Ipê Amarelo.

Não tem medo do frio.
Como tudo que surpreende, é vida que brota dos galhos quando menos se espera. Vida dourada que se equilibra quase planando de tão leve entre as copas.
Contagiante, mágica.
Sim, porque além da beleza guarda um poder especial: minha avó me ensinou que ela realiza desejos!!

Acredito tanto nisso!!! Cada Ipê é um convite pra um sonho.
Aprendi que quem abraça uma árvore florida e divide com ela uma vontade da alma - daquelas bem verdadeiras - realiza o que pede.

E mais, meu Ipê é tão generoso que entende a pressa do dia-a-dia e aceita pedidos feitos de longe, ainda que só com a intenção do abraço.
Ele quer ser visto! Notado. Quer dividir com quem percebe suas cores que sempre é tempo de florir, ainda que faça frio.

Seu encanto é breve. Me inspira, avassala.

Ainda na primavera as flores se vão. Deixam os galhos vazios de seu brilho amarelo, anônimos, quase imperceptíveis durante o verão e o outono.
Tranquilos eles dormem, até que a nova vida dourada de sonhos ouse novamente com sua magia contrariar o inverno.

Quarta-feira, Junho 24, 2009

"Há pessoas que nos roubam

E pessoas que nos devolvem"

Domingo, Junho 21, 2009

Reforma


Esse caderno amanheceu com mais linhas.
Passei a noite relendo arquivos. Revivendo textos.
Publiquei lembranças quase esquecidas. Autocensuras egoístas.

Meu blog é coisa simples, lugar de despejar sensações.
Cada post tem milhares sentidos, marca um lugar no tempo. Tem pra mim o valor da memória.
Quando leio me desloco. Quem me lê também.
Só a sabedoria ingenua do não saber abre as portas.
Engatinho.

Quinta-feira, Março 19, 2009

Acordei egoísta

Saí de casa e logo de cara atrapalhei a passagem de uma mulher com um cachorro. Pra minha primeira surpresa, os dois sorriram.
Na rua de baixo foi a vez dos lixeiros. Eles moíam o lixo, que escorria do caminhão. Agarravam a sujeira que também era minha.
Eu, egoísta quase me encomodava porque que eles atrapalhavam meu trânsito quando, um deles sorriu. Me deu a passagem.
Depois do almoço, na sorveteria eu escolhia o sabor enquanto uma perua tentava insistentemente passar na minha frente. A atendente educada, pedia que ela esperasse. Peguei meu sorvete, fui pagar e a surpresa: estava sem dinheiro.
Não é que a perua, aquela que há instantes quase me irritava se ofereceu pra pagar. Me deu o sorvete, de graça e sorrindo.

A vida é assim, a gente dorme 28 anos coberta de certezas.
Um dia acorda sozinha, vazia de tantas delas.
Dura, egoísta!
Acorda sem o que pensava que sabia, nua do que se amava e de si mesma.
O dia começa triste. É inundado de gentileza.
Você lembra dos sorrisos, tem vontade de chorar.
Olha pro silêncio que tanto desejou e não reconhece.
E então?
Grata adormece, querendo acordar.

Terça-feira, Janeiro 20, 2009

Tenho uma folha em branco; e nela todos os sentimentos do mundo.
Pra não deixá-la como eu. Escrevo.
Deixo as palavras se escolherem, como sempre me escolheram os livros.
Quando entro numa livraria eles me analisam, me procuram, pulam pra dentro de mim.
Assim brotam as palavras. Vibravam há pouco aqui na cabeça, queriam sair.
Talvez por puro capricho.
Talvez pra que assim eu pudesse me ouvir. Escutar o que nem mesmo me digo.

O dia foi cheio.
A noite vazia. A noite e eu.

Toda tentativa de dizer o que era preciso.
Cada gesto pra salvar a noite e não dormir cedo se perdeu em si mesmo.
Faz silêncio e há tanto barulho.

É assim: a página enche, eu esvazio. Mais.
Paradoxo!
De quantos contrários se faz uma angústia?
Responde pra mim ó sopa de letrinhas que eu, surda não ouço!
Desfaz essa impotência!
Diz alto! Me escreve! Me liberta!
Me devolve!

Eu, que só buscava um fim de dia feliz, descubro que eu quero mais do que isso!
Mesmo que não hoje.
Sei que amanhã.

Quinta-feira, Janeiro 15, 2009

Sossega coração

Contudo, dorme!
O sossego não quer razão, nem causa.
Quer só a noite
plácida e enorme.
A grande, universal, solene pausa
Antes que tudo em tudo
se transforme.


Dormi e O ANO há dias espera meu despertar.
Pois bem, é hoje e amanheci em cólera.
Conversei com Fernando e Clarice.

Com ele foi fácil. Um sussuro de bom dia! Ela foi mais dura, como sempre é verdade. Me provocou.

Eu gosto!

Na Descoberta do Mundo, Clarice, certa vez você disse: o mundo também não me agrada. Totalmente.
O amor, em vez de dar, às vezes exige. E de fato, muita gente que gosta de nós, só quer que sejamos algo de que eles precisem.
Morre-se, sem ao menos uma explicação. E o pior - vive-se, sem ao menos uma explicação.
Entendo você em quase todas essas pequenas revoltas. Quase.

Mas acordei e depois de dormir, vc certamente me entende e me apóia: é preciso acordar!

Quarta-feira, Dezembro 17, 2008

Uma vez me fizeram acreditar que o eterno era possível.

Como tudo que se convence eu vi o infinito.

Depois veio o vento, a chuva e o silêncio. Contraditório

Quinta-feira, Setembro 11, 2008

P de que pena

"Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser o pior jeito de gostar."

Sim, nesse 11 de setembro solitário, nada me serve melhor que a frase do Saramago.

Há tanta verdade na ficção, que às vezes me espanto. Em compensação a vida real é tamanha ilusão que me confundo. Desiludo.

Fechei pra balanço, em silêncio, esvazio.

É que quanto mais me aplico em algo difícil, mais percebo a magia do simples. Feliz de quem entende que a única beleza que realmente encanta é a que brota sem expectativas.

Domingo, Julho 27, 2008

Sem medo do escuro

Sim, os cegos enxergam e muitas vezes mais colorido que nós - que achamos que pra ver basta que a luz entre pelos nossos olhos.
Sim, palavras se propagam no vácuo, mesmo que silêncio.

Meus silêncios de fato andam mais longos. Palavras rarefeitas, tateando entre a luz que cega e a imaginação de olhos assustados. Semi-abertos. Empedrados talvez. De tanto, ou tão pouco ver.

Faz dia bonito! Meus sentidos todos me gritam.
Te ouço e sei que pode me ver. Sou palavras novamente. Mais que qualquer outra coisa enquanto me escrevo.

Os livros realmente nos escolhem. Nós somos atraídos por eles.
Faltam poucas páginas pra terminar meu Saramago e eu sigo lendo devagar. Quase com medo de terminar.
Preciso entender minha cegueira antes da última página.
Todos precisamos.
O livro acaba. Eu ficarei.
O livro também, provocando outros cegos e eu preciso enxergar.

Quero mto ver melhor! Às vezes enxergo tão nítido. Mas ver exige cegueira, senão cegamos totalmente.
É como as palavras, pra que se formem escolhemos umas letras, outras não.
Frases são sons e silêncio. Visão, como luz e escuridão.

Fui a um jantar no museu "diálogos no escuro". Foi semana passada.
Na entrada ganhaei uma bengala, meu guia era um cego.
Por uma hora a cegueira dele me conduziu.
Imaginei um mundo no escuro. Senti como o som se propaga no ar. Toquei lugares. Conheci vozes. Fui palavras, sentidos e silêncio.

Depois jantei sem olhos também.
Descobri que tenho pouco paladar e um olfato ruim.
O garçom, também cego me serviu.
Na escuridão, ele enxergava muito mais que eu.
No claro, talvez enxergue também.

Foi inesquecível. Tenho memórias sensoriais agora, elas são claras e espaçosas. Como se ocupassem parte pouco conhecida do cérebro.

"No escuro, quem não fala, não existe" - diziam os cegos.
Com eles aprendi que, no escuro só há sentido quando se fica parado, se não houver o silêncio.

A semana começa,
Que ela venha cheia de boas imagens pra acompanhar os ruídos incessantes da vida que pulsa nas veias fazendo barulho.

Terça-feira, Junho 10, 2008

Voltei

Silêncio.
Cega, sem palavras quase perdi o sentido.
Falei muito por meses. Só falei.
Nenhum rascunho. Nada que me explicasse.
Foram todas palavras soltas, despregadas do papel. Mostravam meu mundo, mas me escondiam de mim. Negativavam. Inúteis, não revelavam.
Queria gritar com a apatia de quem não quer. Não entendia.
Cansada como quem quer chegar, mas não sabe onde e caminha. Por quê?
E eu ia.
Como não podia perder, me buscava.
Que trilha?

Escrever eu preciso! Sempre soube, mesmo quando não sei.
Escrevo como quem respira e respiração é ato continuo, diferente de visão, que dorme, pra amanhecer.
Parei de respirar com a ilusão de quem dorme e sufoquei.
É na escrita que me organizo, me acho. Ela são todos os meus sentidos.
Ela também me alimenta e estou faminta. Faminta de mim.

O mundo é tantos que sem escrever não entendo.
Andei cega. De uma cegueira branca, que escorre dos meus olhos ardidos de tanto ver.
Cedentos.

A cada letra vou tateando na luz. Me ouço. As vistas brancas. Os passos ruidosos. Faz silêncio. É cedo. Volto a me ver.

Domingo, Janeiro 20, 2008

FELIZ ANO NOVO!

Há exatos 7 meses e 18 dias não escrevo.
Foi um silêncio intenso de quem cresce, se apaixona, de quem sofre, de quem goza, de quem vive.
Senti saudade.
Antes que alguém me pergunte o porquê da ausência, pergunto-me eu, assim fico mais a vontade ao ME deixar sem resposta.

Penso que talvez assim, de volta eu consiga uma revelação.
As palavras sempre me ajudaram nisso, sei que desta vez não será diferente.

EM BUSCA DA TRILHA eu encontrei muita gente...
Conheci um pouco do outro lado do mundo,
Fiz coisas de que me orgulho,
mas senti medo também.
Descobri alegria em coisas grandiosas.
Não esqueci das pequenas.
Dormi demais, mesmo dormindo de menos.
Li pouco, mas ouvi muito.
Me encantei. Aliás, continuo encantada!

Foram meses simples, longe de muita gente, às vezes até mesmo de mim.
Andei por aí sem pensar e pensando tanto que quando penso nisso acabo confusa. Deixo pra lá.

Teclar estas palavras - sete meses caladas é quase como tirar a roupa.
Me sinto nua de mim.
Sorte ainda haver tanto por revelar.

Me dou as boas vindas!

Sábado, Junho 02, 2007

BUSCANDO UMA TRILHA


Sexta-feira, Maio 25, 2007

balé

"Você acorda na ponta dos pés
Não porque acorde dançando;
Mas porque desce do céu.
Toca o mundo de maneira tão leve
Como se dele adivinhasse as dores e quisesse poupá-lo de dores maiores.
Você anda na ponta dos pés
Passa e nenhuma poeira levanta
Parece saber o tanto que pesa o pouso no mundo de qualquer sujeira
Caminha e nenhum ar se desloca
Cuidadosa, não esbarra em um átomo sequer
Não atrapalha o rodopio dos elétrons
Não atropela nada invisível
E ainda sim tanta leveza te pesa.
Parte de você te aperta.
É que toda bailarina um dia fica tonta
E tenta se recompor no contrapé
É que nem toda bailarina se dá conta
De que tonta realiza o mais lindo balé."

Sabe?

Penso que as coisas devem ser o mais naturais possíveis, em tudo. Em se tratando de coração principalmente.
Ele é natural. Tudo o que ele sente é natural. E o que ele não sente também.
Penso que sofremos porque insistimos em não concordar com ele, em não ouvi-lo, em ir contra ele.
Se seu coração te diz "não amo", deixe ele quieto. Assim, não o acuse de estar perdido, de ser frio, de estar estranho. Por que se hoje ele não ama isso é natural. E passará naturalmente.
Um dia ele amará.

Quinta-feira, Maio 24, 2007

O meu silêncio é barulho

Tão alto que me ocupa.
Ele é pleno, plenamente vazio e ele me invade. De uma intensidade longa. Intensidade que também é minha.

Não, não sou um silêncio triste; tampouco sou algo puramente feliz.
Sou! Simples assim como quem é. E sou tantas. Tenho sido tantas, que nem me sei.

Não basta.
Seria preciso saber alguma coisa. Parte qualquer dessas respostas que – quando eu silencio, como agora - me espantam.

Mas sou perguntas demais!
Sou incansável. Quero tanto saber! Quero saber!!
Saber o quê?

(...) Se eu fumasse, fumaria um cigarro.
Seria agora certamente.
A lua tá linda. É crescente. Tá frio.
Mas nem isso. (...)

Nada veio.
Gastei palavras demais para uma busca inútil.
Perdi meu tempo e Já faz cinco minutos.
Minto, viu! Foram 10.
Estou imóvel, muda, perplexa.
Você também perdeu o seu tempo.
Perdemos?

Quarta-feira, Maio 23, 2007


Domingo, Maio 20, 2007

Cabelo

Queria palavras agudas pra reagir a gravidade.
Precisava com urgência de um grito. De eco.
Uma dose pouca, mas real de liberdade pra desejar o que não tenho.

Ontem, montei a rede num lugar diferente.
Mas as árvores nos conheciam, lembra?

De certo não lembra.
Chovia e hj era sol.

Talvez lembrasse...

Não há como saber.

Meu verbo é mudo. Seu silêncio agudo.
É noite, é grave e realmente não há como saber.

Te encontro no acaso. Acaso que é fio. Me conduz.
Eu te guardo.

Bastaria um jeito simples, jeito qualquer...
Caminho curto que me levasse até onde não sou, senão ausencia.
Mas antes seria necessário ser ausencia.
Como se sou não sei. Não sou.

Se o que falta faltasse simplesmente, eu não estaria aqui. Estaria lá.
E não haveria noite. E haveria sorrisos. E não haveria o medo - esse que não há.
Não há?

A droga é que falto eu! Onde, como e na hora que eu não poderia faltar.
Sobram motivos pra essas palavras vazias.
Tantas. Inúteis. E pra ninguém.

Quinta-feira, Abril 26, 2007

Sobre calos e escuro

Mta gente teme o escuro. Talvez porque seja uma das possibilidades de se ficar só, completamente sozinho consigo mesmo.
Eu não.
Tenho outros meios de me buscar, gosto de me encontrar em dias de sol.

Fico imaginando como seria a paisagem de uma perda.
Olhar que escapa.
Imagem que não revela.
Penso numa teoria da arte que seja a materialização da entrelinha.
Entrelinha pura, real: que revela sim, enquanto se perde.

Não me sinto a vontade com as perdas, elas levam pedaços da gente.
Prefiro os encontros, que nos unem ao que sempre esteve perdido, inacessível.
Mas há beleza no que se escapa. E há revelação no que não se diz.

Acho a revelação natural.
Tenho poucos segredos silenciosos de verdade. Mas sei que eles são sempre partes importantes de mim.
Ignoramos o que não entendemos.

Segredos, em suma, são faces da nossa personalidade que nos recusamos em determinados momentos a reconhecer.
Algumas revelações são realmente necessárias.

Terça-feira, Abril 24, 2007

Estou livre: serei verdadeiramente feliz.

Ordens de uma criança. A mais doce e a mais linda!
Sei que depois desse abraço eu sou outra, por mim e graças a ela.
Nos despedimos do medo, sorrindo. Sem culpa.
É dia de rasgar os roteiros. Rasguei.
Chega de planos!
Não precisamos mais de provas.
A vida que nos surpreenda!

Revelar

''Você já esteve num laboratório fotográfico?
Eu já. E como me fascina, naquela escuridão, poder ver tudo avermelhado!

Cada imagem que aparece naqueles papéis em branco é fruto de uma espera cuidadosa, de uma mágica que tem tempo certo pra acontecer.
Se nos apressarmos, nada vem...
Se demorarmos demais, o que vem, vem queimado.
Se houver qualquer fresta de luz por baixo da porta, ou pela violência do vento - que pode abrir a janela... tudo pode se perder.

Aprendi com a fotografia que cada revelação tem seu próprio tempo.
O tempo de acontecer, mesmo que pareça errado.
Sim, é claro, podemos violentá-la e arrancá-la às pressas, à força. E o que vem? Uma revelação estranha, quase sempre pela metade.

Mas as revelações são necessárias. São boas. São resultado da luz - que eu tanto gosto!
O contraditório é que elas só aparecem no escuro.''

Segunda-feira, Abril 23, 2007

Perguntaram-me se acredito em Deus

A ''história" é criatura do tempo. As "estórias" são emissárias da eternidade.
Escrevo pela alegria de viver e, acho, pra continuar a viver, mesmo quando estiver ausente.

Os poetas sabem que tudo começa com a palavra.
Antes da poesia, o que havia era somente um abismo escuro.
Foi então que, de repente ouviu-se, dentro do caos uma melodia: era os sonhos adormecidos, que acordavam de um longo sono.
O corpo come para poder andar. Mas para poder voar é preciso asas.
A poesia são as asas da alma.

É assim que é: Deus quer; o homem sonha; a obra nasce.
São sempre as crianças que fazem as melhores perguntas.

Deus é como o vento.
Sentimos na pele quando ele passa, ouvimos sua música nas folhas, seu assovio nas portas. Na flauta o vento se transforma em melodia.
Não é possível engarrafa-lo. No entanto, as religiões tentam engarrafa-lo em lugares chamados de “a casa de Deus”. Mas se Deus mora numa casa, estará Ele ausente do resto do mundo?
Deus nos deu asas, mas as religiões criaram gaiolas.
Deus é uma suspeita do nosso coração que o universo tem um coração que pulsa como o nosso. Suspeita... Nenhuma certeza.

Deus nunca foi visto. Por acaso a gente vê os próprios olhos?
Para ver com os olhos é preciso não ver com os olhos.
Deus é como os olhos. Não podemos vê-lo para ver através dele.
Deus é um jeito de ver.

Saudade é a presença da ausência das coisas que amamos e que nos foram roubadas pelo tempo.
As águas dos rios são circulares, o tempo é circular, o que foi perdido volta, num eterno retorno...
Não há jeito de acabar com o perigo.
Mas há um jeito de se acabar com o medo.
Coragem é isso: dormir sem medo a despeito do perigo.
Deus existe pra nos curar da saudade.

Imaginação é o lugar onde as coisas que não existem, existem.
Este é o mistério da alma humana: somos ajudados pelo que não existe.
E quem é possuído pela esperança, fica grávido de futuros.

(Rubem Alves, Fernando Pessoa e eu)

Segunda-feira, Abril 09, 2007

Dia de estréia abençoada (SONHO)

"Sonhe com aquilo que você quiser…
Seja o que você quer ser…
Porque você possui apenas uma vida
E nela só temos uma chance de fazer aquilo que queremos.
Tenha felicidade bastante para faze-la doce,
dificuldades para faze-la forte,
tristeza para faze-la humana.
E esperança suficiente para faze-la feliz.

As pessoas mais felizes não tem as melhores coisas,
elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos.
A felicidade aparece para aqueles que choram…
Para aqueles que buscam e tentam sempre…
E para aqueles que reconhecem a importância das pessoas que passam por suas vidas.
O futuro mais brilhante é baseado num passado intensamente vivido.
Você só terá sucesso na vida quando perdoar os erros e as decepções do passado.
A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar……duram uma eternidade…"

C.Lispector

Foi com essa mensagem que a Ana Maria abriu o programa de hoje.
Programa de reestréia, programa da minha estréia.

Quem me conhece sabe o quanto Clarice é importante.
Quem me conhece um pouquinho mais sabe o quanto hoje foi importante!
Agora, quem me conhece profundamente, sabe que não acredito em coincidências. Sabe que essa mensagem tem pra mim um sentido mais do que especial.

A todos aqueles que fazem parte desse sonho, meu muitíssimo muito obrigada.
Mais que isso, quero dividir com todos essa intesa alegria!
Quero que a gente siga junto! A missão é sonhar, realizar ainda mais e cada dia melhor!

OBRIGADA DEUS!!!

Segunda-feira, Março 19, 2007

Ontem foi ao ar meu último Profissão Repórter

Durante um ano dividi a tela com gente importante: homens e mulheres de pouca chance, de muita luta.
Guerreiros do tipo que raramente se percebe.
Anônimos que mudaram minha vida.

Estive em lugares que ninguém sonha conhecer.
Dei voz e principalmente os ouvidos a histórias de quem caminha calado.
Caminha bastante.

Fui parcial todas as vezes.
Me envolvi.
Abracei, carinhosamente cada um de meus colegas de filme. Filme que é vida real.

Senti o peso do podão da cana, o medo da bala perdida.
A indignação.
Experimentei o calor de acordar sob a lona de circo rota.
A brisa compadecida do teto de pau a pique.
O gosto do fogareiro de Dona Doca - dona do riso mais puro.
Risada da própria risada.

Revisitei a solidão do cárcere feminino.
Caminhei com vendedores de sonhos... Batedores de balde.
Mascates de terra batida.
Encontrei a saudade e a coragem nos pais que perderam seus filhos. Descobri com eles minha mortalidade.
Ela é borboleta verde.

Fui as ruas, ao agreste, as delegacias...
Vi mulheres sangrando por dentro e por fora.
Ouvi seus agressores.
O apito do enfrentamento. Apito alto, do Morro da Conceição.
Escutei gritos também:
Os de quem briga, no porto por uma vaga na estiva; os de quem não mora, resiste por um lugar na vida - ainda que sem-teto.
Fui testemunha de Edna; dos desenhos de Ingrid, das mangas de Israel, da cura de Isadora.

Não fiz isso sozinha, tive parceiros incríveis!*
Foi um ano intenso. De muito sonho, pouco sono, pouco tempo.
Defendi cada palavra a mim confiada como um tesouro.

Não quero medalha!
Sigo adiante.
Na bagagem vai toda essa gente e a mesma inocência de quem acredita que as grandes histórias só existem dentro do coração das pessoas.

(Gratidão aos incríveis...:
- Caue Angeli, Michael Fox e Emilio Mansur pelo cuidado e capricho com nossas imagens.
- Doniste Araújo pela parceria de ilha nos dias, noites e madrugadas de luta.
- Aos melhores chefes do mundo: Marcel Souto Maior e Caco Barcellos pelas lições e pela oportunidade
- Caio Cavechini - meu companheiro nas buscas mais difíceis – por dividir comigo seu olhar curioso, fantástico; pela cumplicidade, pelas provocações e principalmente por me ajudar a quebrar os meus próprios padrões!)

E viva a nova fase!!!

Sábado, Março 17, 2007

Alagamos São Paulo?

"Escrevo-te porque não me entendo.
Embora escrever só esteja me dando a grande medida do silêncio.
Nada existe de mais difícil do que o entregar-se ao instante. Esta dificuldade é dor humana. É nossa.
Eu me entrego em palavras.

Não sei captar o que existe, senão vivendo cada coisa que surgir e não importa o quê.
Escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra.
O que te escrevo deve ser lido rapidamente como quando se olha.
O que te falo nunca é o que te falo e sim outra coisa.
Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada.

O que escrevo é um só clímax?
Meus dias são um só clímax. Vivo à beira.
Cada coisa tem um instante em que ela é.
Quero apossar-me do é da coisa.
Porque ninguém me prende mais.

Agora é de novo madrugada.
Ao amanhecer eu penso que nós somos contemporâneos do dia seguinte.
E eu tinha resolvido dormir pra poder sonhar. Estava com saudades das novidades do sonho...

Domingo é o dia de ecos. De onde vem o oco do domingo?
Estou esperando a próxima fase. É questão de segundos.
Falando em segundos, pergunto se você agüenta que seja hoje e agora e já.
Sinto-me tonta como quem vai nascer.
(Você me deixa tonta)

Quero a experiência de uma falta de construção.
Não.
Não é fácil.
Mas é.
E ninguém é eu, ninguém é você. Esta é a solidão.

A palavra mais importante da língua tem uma única letra: é. É.
Sou-me.
Não se compreende música: ouve-se. Ouve-me então com teu corpo inteiro.

Ninguém me ensinou a querer. Mas eu já quero.
Levantei. Porque estou cansada de me defender.
Sou inocente.
Até ingênua porque me entrego sem garantias.
Que garantias?
Respiro de noite a energia. E tudo isto no fantástico.
Fantástico: o mundo por um instante é exatamente o que o coração pede."

C.L. e eu

Quinta-feira, Março 15, 2007


Domingo, Março 11, 2007

Macondo...

É um lugar quente e úmido. Lá vive Rebeca, Ângela, Marina... Dezenas, talvez milhares de mulheres.
Macondo é solidão. Lugar vazio a procura de espaço.
É terra do fantástico!
Lá as pedras queimam, faz-se ouro, come-se terra e se esquece de tudo...
E há lascívia. Há sonhos e são caracóis gigantes!
Macondo é resistência. Terra úmida que amanhece com cheiro de vida recomeçada.
Mas também há medo.

Macondo fica no Caribe, na imaginação dos arquitetos. Fica dentro da gente.

Sexta-feira, Março 09, 2007

Sou feminista!

Uma afirmação nada simples.
Frase que faz barulho!

Ser feminista nunca deve ter sido fácil, principalmente nos anos 60 - quando falar de igualdade de gênero era fazer revolução. Mas hoje, a briga ainda é boa. Essa falsa atmosfera de igualdade me revolta!
A maior prova da força do machismo vai além das estatísticas que ainda mostram que um terço das mulheres são agredidas pelos companheiros dentro de casa; supera a força das pesquisas que revelam que as mulheres ainda ganham menos que os homens, pelo mesmo trabalho. Ela está no esvaziamento do sentido da expressão feminismo. Ser feminista hoje é démodé, é coisa de mulher mal amada, de sapatão.
O motivo:
A sensação geral é de uma satisfação hipócrita.
Consigo ouvir uma voz grave gritar: meninas vocês já conseguiram o suficiente, voltem pra suas rotinas e parem de nos incomodar!

Ontem ouvi tantos parabéns, tantos votos de feliz dia das mulheres... Foi uma conspiração universal!
Como comemorar a morte de 129 operárias numa fábrica americana que lutavam por condições suportáveis de trabalho?
Como dar flores e abraços a mulheres que são oprimidas todos os dias?
No meu caso em especial, porque desafiar meu feminismo?

Apesar e justamente por todos vcs que não entendem a importância dessa bandeira: sou feminista, sim!
Feminista do tipo que respeita as guerreiras que saíram as ruas pra garantir meus direitos de hoje; que tem admiração por quem morreu nas fogueiras, ou nas fábricas pra que eu pudesse hoje sonhar viver diferente; ter o direito de me sentir igual.
Sou feminista do ano 2000, que sabe que a briga mais difícil de todo dia ainda é por respeito.
Não aceito os parabéns!

Sexta-feira, Fevereiro 02, 2007

Companhia de viagem

Queria tanto ler alguma coisa. Qualquer texto que me fizesse algum sentido e preenchesse o vazio dos outros e o excesso de mim dos últimos dias.
Queria, mas por estar o livro mais próximo a dezenas de quilômetros de mim, resta-me apenas imaginação. Nela garimpo frases perdidas, não escritas... Consigo papel e caneta.
Ponho as palavras pra fora, em seqüência, como quem organiza a própria casa. Fora de casa.
Meu redor são barulhos, são ecos... Sotaques misturados, a margem do rio, Preguiças...
Quando digitar (ou não) esses pensamentos soltos, já longe daqui será no meio de dezenas de livros que vão me encarar invejosos. Essa falta de agora não existirá e talvez todas essas frases não façam mais nenhum sentido.
Não ligo. Por enquanto são pra mim mais que companhia.

Domingo, Janeiro 28, 2007

Sem perguntas, sem respostas

Quando se viaja sozinha, sobra tempo pra pensar em quase de tudo.
Há dias, tenho horas inteiras pra mim. É tanto tempo.
Quando estou distraída, fico prestando atenção... E há tanto pra ver.
Agora mesmo, sorri de repente. Rápido, espontâneo, bonito.
Por alguns segundos, me senti quase feliz.

Mas tenho pensado também em outras coisas, não sou egoísta. Observando as crianças, aprendo com elas.
Pequeninas, elas perguntam tudo. Não tem a vergonha da gente. Elas são curiosas, desbravam enquanto nós, adultos apenas contemplamos nossa falta de curiosidade..
Horas atrás, junto com um grupo de turistas, passeávamos na carroceria de uma caminhonete, em silêncio até que uma garota de uns seis anos fez uma pergunta. Queria saber porque o fogo era vermelho.
A mãe dela desconversou, todo mundo ficou calado, ninguém sabia.
Segundos depois, uma nova tentativa... “Mamãe, porque a gente tá tão longe, e mesmo assim sente o cheiro do fogo?” A resposta mais uma vez foi um pesado silêncio, seguido de uma bronca: “menina, você pergunta demais!”.
Também levei uma bronca, de mim. Como eu desisti dessas e de tantas outras perguntas?

Domingo, Dezembro 17, 2006

Cartas a Hermengardo

Em verdade eu te digo: felizmente tu existes. A mim me bastaria apenas a existência de uma criatura sobre a terra para satisfazer meu desejo de glória, que não é senão um profundo desejo de vizinhança (...) Agora só desejo mais alguém além de mim mesma, pra que eu possa me provar...
Não sei. Talvez porque é necessário salvar alguma coisa. Talvez pela consciência tardia de que somos a única presença que não nos deixará até a morte. E é por isso que nós amamos e buscamos a nós mesmos. E porque enquanto existirmos existirá o mundo e existirá a humanidade. Eis como, afinal, como nós nos ligamos a ele.

E tudo isso que eu estou dizendo é apenas um preâmbulo qualquer que justifique meu gosto de te dar tantos conselhos. Porque dar conselhos é de novo falar de si. E cá estou eu...

Eu te falarei da quinta sinfonia de Bethoven.
Senta-te. Estende tuas pernas. Fecha os olhos e os ouvidos. Eu nada te direi durante cinco minutos para que possas pensar na sinfonia de Bethoven. Vê, e isto será mais perfeito ainda, se consegues não pensar por palavras, mas criar um estado de sentimento. Vê se podes parar todo o turbilhão e deixar uma clareira para quinta sinfonia. É tão bela.

Só assim a terás, por meio do silêncio. Compreendes! Se eu a executar para ti, ela te desvanecerá, nota após nota. Mal dada a primeira, ela não mais existirá. E depois da segunda, o segundo não mais ecoará. E o começo será o prelúdio do fim, como em todas as coisas. Se eu a executar ouvirás música e apenas isso. Enquanto que há um meio de detê-la parada e eterna dentro de ti.
Não a executes, é o que deves fazer. Não a executes e a possuirás. Não ames e terá o amor dentro de ti. Não ouças a quinta sinfonia de Bethoven e ela nunca terminará para ti.(...)
Erige dentro de ti o monumento do desejo insatisfeito. E assim as coisas nunca morrerão, antes que tu mesmo morras.

(Clarice Lispector - Outros Escritos)

Sábado, Dezembro 09, 2006

Reedito

Às vezes o tempo passa tão rápido que nos leva pra longe.
Quando corro demais, assim como nesses últimos dias, me pergunto pra onde.
Talvez a verdade esteja em estar assim, perdida pra dentro e pra fora de mim.
Busco tanto, o tempo todo que no meio de tantas histórias me acho.
Um pouco nas perdas, nos encontros... Nos sonhos que nem são meus, nas lutas que compro sem sequer saber como lutar.
Uma sem-rotina que encanta!

Sou perguntas de muitas respostas, que se reinventam na confiança de estranhos.
Se nas idas divido com quem sente, sem tantos porquês. Nas voltas, reencontro nas dúvidas que ninguém sabe dizer, minhas próprias perguntas.
Assim, a vida se recomeça e me reinventa de repente. A cada chegada, em cada partida.
E daí, quando páro, depois de tanta procura me permito não saber.