domingo, julho 27, 2008

Sem medo do escuro

Sim, os cegos enxergam e muitas vezes mais colorido que nós - que achamos que pra ver basta que a luz entre pelos nossos olhos.
Sim, palavras se propagam no vácuo, mesmo que silêncio.

Meus silêncios de fato andam mais longos. Palavras rarefeitas, tateando entre a luz que cega e a imaginação de olhos assustados. Semi-abertos. Empedrados talvez. De tanto, ou tão pouco ver.

Faz dia bonito! Meus sentidos todos me gritam.
Te ouço e sei que pode me ver. Sou palavras novamente. Mais que qualquer outra coisa enquanto me escrevo.

Os livros realmente nos escolhem. Nós somos atraídos por eles.
Faltam poucas páginas pra terminar meu Saramago e eu sigo lendo devagar. Quase com medo de terminar.
Preciso entender minha cegueira antes da última página.
Todos precisamos.
O livro acaba. Eu ficarei.
O livro também, provocando outros cegos e eu preciso enxergar.

Quero mto ver melhor! Às vezes enxergo tão nítido. Mas ver exige cegueira, senão cegamos totalmente.
É como as palavras, pra que se formem escolhemos umas letras, outras não.
Frases são sons e silêncio. Visão, como luz e escuridão.

Fui a um jantar no museu "diálogos no escuro". Foi semana passada.
Na entrada ganhaei uma bengala, meu guia era um cego.
Por uma hora a cegueira dele me conduziu.
Imaginei um mundo no escuro. Senti como o som se propaga no ar. Toquei lugares. Conheci vozes. Fui palavras, sentidos e silêncio.

Depois jantei sem olhos também.
Descobri que tenho pouco paladar e um olfato ruim.
O garçom, também cego me serviu.
Na escuridão, ele enxergava muito mais que eu.
No claro, talvez enxergue também.

Foi inesquecível. Tenho memórias sensoriais agora, elas são claras e espaçosas. Como se ocupassem parte pouco conhecida do cérebro.

"No escuro, quem não fala, não existe" - diziam os cegos.
Com eles aprendi que, no escuro só há sentido quando se fica parado, se não houver o silêncio.

A semana começa,
Que ela venha cheia de boas imagens pra acompanhar os ruídos incessantes da vida que pulsa nas veias fazendo barulho.

3 comentários:

Carlos Odilon disse...

Muito show a reflexão! A questão dos "ruídos incessantes da vida" é ótima!
Parabéns!

luciana aith disse...

Li esse livro pela primeira vez tinha 17 anos. Fiquei tão impressionada que até hoje é meu livro preferido. Quando fazia teatro, até fiz uma cena com um texto adaptado... terminava a cena muito dramática dizendo: "Estou cego, dizia o homem, estou cego"...
Não vejo a hora do filme estreiar.

NÁDIA BOCHI disse...

Agradeço a visita!
É um livro impressionante esse, tá mexendo com minha cabeça!
Tbm to bem ansiosa pra estréia.