sábado, maio 20, 2006

Profissão bóia-fria


Foram quatro viagens em busca da notícia. Quatro mil quilômetros de estrada para chegar perto dum universo de exploração, parecido com o das roças de quinhentos anos atrás.
Viagem de carro, viagem no tempo!
A grandeza da indústria esconde a dor de homens, que aos milhares cortam em média dez toneladas de cana por dia. Trabalho sob sol quente, quase nenhuma proteção e em troca de pouco dinheiro.
Depois de algumas tentativas, conseguimos emprego sem registro e sem equipamentos de segurança. Um ônibus caindo aos pedaços nos aguardava pouco depois das cinco da manhã. Deixou-nos na beira de uma estrada, de onde nossos patrões nos levaram até o local do corte. Tudo a base do disfarce e da superação do medo, inimigo bem forte.
Lá, cerca de cinqüenta homens aguardavam sobre o frio do dia que nasce, pelo sol que logo nos acompanharia até o fim da jornada. Eu era a única mulher e o que por um lado me encheu de orgulho, também aumentou a sensação de insegurança.
Olhares desconfiados, cabeças baixas e... Muita oração!
Trabalhamos por pouco mais de duas horas, cortamos - em dois - meia tonelada de cana, o equivalente em dinheiro, a um real.
Registramos a dureza do trabalho e em que condições os cortadores sobrevivem. Exaustos e acreditando que a missão havia sido cumprida, fugimos pela estrada na companhia do medo, aquele... Mas nessa altura já muito pior, de sermos descobertos.
Ainda hoje me pego calculando o tamanho do risco e da crueldade da roça. O corpo dolorido, mal se controlava. Braços e pernas não obedeciam. Sem controle, no estágio anterior as câimbras, simplesmente doíam.
Quando penso no que poderia ter acontecido se nosso disfarce de bóias-frias fosse descoberto, gelo na espinha. Ali, longe da cidade, a quilômetros de qualquer autoridade... Fomos malucos, sabemos. Mas era esse o único jeito.
Ainda penso muito nas engrenagens do sistema de exploração que transforma quase todos os seus personagens em vítimas, ainda que vilões. Me sinto triste, quase impotente.
Agora, prestes a ver o resultado, sei, ansiosa... que talvez seja pretensão demais achar que essa loucura que fizemos possa mudar a crueza do corte, regras que imperam nos nossos canaviais desde nossa colonização. Mas gosto de pensar que revelamos pelo menos um pouquinho de onde essa ferida brasileira, quase esquecida, dói e durmo tranquila.

** Veja a reportagem: http://gmc.globo.com/GMC/1,,2465-p-M462182,00.html

Segunda parte: http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM462182-7823-PROFISSAO+REPORTER+UM+DESAFIO+NA+COLHEITA+DA+CANA,00.html

4 comentários:

Nico disse...

Oi Nádia!

Acabei de ver sua reportagem no Fantástico!

Bacana heim?

Sou um futuro estudante de jornalismo e procuro conhecer o trabalho de pessoas como você para me inspirar mais ainda!

Beijos e muito sucesso!

Fábio!

P.S.: você toca bateria né? Tem banda? Estou formando uma banda com uns amigos e não temos baterista!

Luciana Gordilho Aith disse...

Sem palavras... como uma mulher que parece tão frágil pode ser tão forte...
Meus mais sinceros parabéns, cheio de orgulho e admiração ;o)

Luciana Gordilho Aith disse...

Espero que não se chateie com o "frágil", é que eu não te conheço pessoalmente, e vc parece tão delicada...

*marcela* disse...

como alguem disse aí acima.. delicada, sim.. mas forte como poucas tb em muitos sentidos.

Dorme tranquila mesmo que vc merece!!! sua parte da tarefa foi cumprida da melhor forma que poderia!!! parabéns por se tornar, sem dúvida, motivo de orgulho pra todas as mulheres, principalmente às jornalistas.. hehehe =)))

beijao.. se cuida!