terça-feira, janeiro 24, 2006

Nelson Rodrigues, meu pai e eu

No restaurante, entre uma e outra picanha... Meu pai e eu conversávamos sobre relacionamentos...
Fui dura com ele! Cobrei o porquê de todos os pais, ensinarem aos filhos que o amor e a fidelidade existem, se na real não há senão relacionamentos falidos e muita, muita hipocrisia.
Entre uma e outra cerveja, ele tentou explicar. Mais do que isso, tentou me ajudar a não me sentir um fracasso por acreditar em conto de fadas!
Não sei se deu certo...

À tarde fui ao teatro ver A Serpente, de Nelson Rodrigues.
Odeio Nelson Rodrigues!!!
Fui apenas por duas razões: ganhei os ingressos e na frente da FAAP tem uma sorveteria maravilhosa...
Domingo à tarde, e lá estavam eu e o Nelson – o odiado – frente a frente mais uma vez... Ansiosa pelo sorvete que viria depois...
Juro, que tentei não ser resistente e assistir à peça sem preconceito.
Cinco minutos depois, nem a Débora Falabella foi capaz de impedir que eu odiasse tudo!
Uma hora e meia de sexo da pior qualidade, personagens que mais parecem animais no cio e conseqüências absurdas para esse comportamento absurdo dessa gente absurda... Resumo de mais uma obra, igual a tantas outras do sempre ninfomaníaco e frustrado Nelson...

Lembrei da conversa com meu pai...
E em transe com tanto desgosto, cheguei a pensar que talvez o mundo seja mesmo grotesco como nas peças de Nelson Rodrigues.
Se meu teclado tivesse ponto de interrogação, perguntaria a mim mesma mil vezes se nós pessoas não somos tão animais quanto a ficção.
Ainda bem que não há interrogação e isso me faz desistir de seguir questionando.

O mundo, hipócrita, que não acredita em amor, respeito e fidelidade que me perdoe, mas eu continuo vivendo longe do palco de Nelson. E apesar de não me convencer com os argumentos desprevenidos de papai, continuo acreditando que o amor é possível.

Se é pra vida imitar a ficção, não abro mão de escrever minha própria história e há de haver alguém que sonhe parecido pra me ajudar...
Sem medo de parecer infantil, deixo meus próximos ingressos pra Nelson Rodrigues a quem tiver medo de viver comigo esse conto-de-fadas e vou acompanhada - ainda que apenas de minha ingenuidade tomar sorvete, desta vez sem ter que entrar no teatro.

2 comentários:

ana disse...



acho que de todos, tão bons, este é o que eu mais gostei!! é como se alguém falasse por mim, sou eu exata... sabe como é? quando alguém fala por vc? e é o que torna a arte universal... quando o público se sente narrado, olhado, registrado...

ficou um espanto: como é que eu nunca escrevi este texto?

muitos beijos orgulhosos e agradecidos!!
você é uma fofa!!

Anatália Nery (Mô) disse...

(concordo com vc)é sim!!! o *AMOR* e a fidelidade existem, eu acreto!!! BJS